"É melhor ser belo do que ser feio."
Ultimamente tenho pensado sobre a beleza. Independente do que consideramos belo ou feio como cultura e sociedade, se você pudesse escolher entre ser considerado belo ou feio, o que você escolheria?
Naturalmente, é melhor ser bonito do que feio. Mas por quê? O que significa ser belo e o que isso implica? Qual seria a relação disso com a objetificação de pessoas?
Bom, primeiramente, as regras pelas quais definimos o que é bonito e o que é feio é uma disputa política. Não no sentido mais comum, de congressos e parlamentos, mas num sentido mais amplo. Há várias pessoas que literalmente se esforçam para serem consideradas bonitas (como atrizes, atores e modelos). E há pessoas que validam sua beleza (geralmente pessoas em relação de poder, como o responsáveis pelo casting de filmes e comerciais, e diretores). Essas pessoas, em conjunto, definem os padrões estéticos da sociedade.
Uma vez definidos esses padrões estéticos, outros buscarão se encaixar nesse mesmo padrão. Se na China, em algum período, foi definido que mulheres com pés pequenos eram atraentes, fez com que as mulheres (possivelmente coercitivamente) buscassem, até mesmo por técnicas torturantes, ter pés pequenos. Ou como as mulheres que utilizavam anéis ao redor do pescoço para ficar mais comprido.
Hoje em dia, há mulheres que se deixam objetificar em quase qualquer lugar da internet e do mundo. Mas o que justifica que essas mulheres, por vontade própria, postem fotos seminuas (ou nuas) que permitem a objetificação o próprio corpo?
Acho que, para procurar uma resposta, é interessante olhar para a dialética mestre-escravo de Hegel, presente na Fenomenologia do espírito, e fazer uma analogia. "A passagem descreve o desenvolvimento da autoconsciência como se fosse o resultado de um encontro entre dois seres distintos e também autoconscientes".
Uma pequena digressão:
O que não sou eu é o outro. O outro, que é diferente, que faz com que eu crie uma autoconsciência (Se o outro fosse igual a mim, só existiria o "eu"). Daí surge um embate, porque eu quero mais de mim mesmo no mundo, eu quero mais de mim mesmo inclusive no outro. Eu não gosto do que é diferente, porque o outro me diminui. A presença do outro faz com que haja menos de mim mesmo no mundo. Eu quero que o outro seja como eu. Mas, no momento em que o outro se submete e se torna como eu, a minha autoconsciência fracassa. E o outro, que se submete e se deixa dominar, também passa a ter poder sobre mim. O mestre, que não trabalha (e, muitas vezes, nem sabe realizar o trabalho), depende do escravo para lhe dar o sustento. A minha existência passa, então, a depender da existência do outro.
Logo, se eu projeto meus gostos e preferências estéticas sobre o outro (projetando o meu "eu" sobre ele) e ele corresponde a essa espectativa, ele não está apenas se submetendo, mas também obtendo poder sobre mim.
As mulheres que buscam a beleza por meio de posições objetificantes buscam, também, o poder sobre o olhar do outro que, muitas vezes, acaba se revertendo para outros tipos de poderes (simbólico, econômico, financeiro).
Outras questões surgem: se os padrões estéticos não fossem os atuais, quais seriam? E, caso fossem realmente diferentes, o que mudaria?
Bom, os padrões estéticos são definidos em uma disputa política de poder. Logo, posições de poder geralmente possuem prerrogativa e possibilidade de definir o que é belo culturamente e em uma sociedade. Se as posições de poder se alternassem e, por exemplo, mais mulheres as ocupassem, a opressão e objetificação do corpo feminino acabaria? Muito possivelmente diminuísse, mas não acabaria. Porque a beleza não só é definida pelos que tem poder. A própria beleza é poder. Logo, qualquer que fosse o padrão estético, as pessoas continuariam buscando-o, mesmo que fossem objetificadas no processo.
Não há como abolir padrões estéticos visto que o ser humano, por natureza, categoriza e separa as coisas (entre belo e feio, forte fraco, bom e mau, etc). E, como beleza é um valor puramente visual, muitas vezes desconectado de qualquer outro valor, a busca pela beleza continuaria objetificante. Mas, ainda assim, seria melhor ser belo do que ser feio.
Os "feios" sempre continuarão relegados à rejeição social. Contudo, claro, podemos, como sociedade, dar mais importância a outros valores que não simplesmente o capital estético das pessoas. Só me parece improvável porque assim como julgamos a estética das coisas (ambientes, decorações, roupas e até video-games. Hoje em dia tudo tem design envolvido), julgamos a estética das pessoas. Nós não conseguiríamos ter um olhar que julga a beleza dos objetos e do mundo que nos cercam, mas que é cego para a beleza das pessoas e não as julga (e nem as objetifica).
Mostrando postagens com marcador opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador opinião. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 17 de julho de 2020
quinta-feira, 24 de maio de 2018
31 anos
"Tenho medo do futuro
Tenho medo dos meus pais não viverem o bastante para verem meus filhos
Tenho medo que meus show será um fracasso
Tenho medo que minha namorada não fique grávida no exato momento que queremos
Tenho medo que eu nunca vou atingir meu potencial verdadeiro
Tenho medo que ela ainda ame aquele cara"
Não fui eu quem escreveu o bilhete e a letra não é minha, é de uma pessoa famosa. Não representa exatamente o que eu penso ou sinto no momento mas, quando foi postado no Instagram, muitos disseram que estava depressivo ou que era suicida.
Semana passada fiz 31 anos. Procurei comemorar cada dia pelo menos um pouco, do meu jeito, por uma semana. Minha vida não é perfeita, nem do jeito que eu gostaria exatamente. E também tenho medo de coisas no futuro. Ainda assim, tá tudo bem, porque a vida é assim.
Quando a gente posta qualquer tipo de coisa, coisas boas ou ruins, pessoas julgam, sentem vergonha alheia, inveja, o que seja. Sempre há quem julgue. Pra quem é famoso, como o autor do bilhete, deve ser ainda pior. Porque pessoas famosas, teoricamente, tem vidas boas e maravilhosas. Porém, mesmo elas tem problemas e inseguranças. Todo mundo tem.
Não tô aqui pra dar lição de moral ou dizer que as pessoas são hipócritas. E não quero criticar o ambiente das redes sociais, porque isso já é clichê. Só queria dizer que, assim como há pessoas que julgam, se você tá mal ou com algum problema, sempre tem pessoas para escutar e ajudar. E, de vez em quando, a gente precisa sim ouvir coisas boas, um apoio moral ou ser ajudado. Então, sei lá, só queria deixar uma mensagem positiva aqui. Aproveite a vida, busque coisas boas, seja feliz.
Por fim, fiquei sabendo por acaso de um PM chamado Rayrisson, foi atacado e ficou cadeirante, e resolvi ajudar. Não conheço ele pessoalmente, mas o link da vakinha dele é:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/adaptando-se-a-uma-nova-vida
Se não puder ou não quiser ajudar ele, tem outras pessoas que precisam da sua ajuda também e acho que não custa muito fazer algo assim pelo menos de vez em quando.
Tenho medo dos meus pais não viverem o bastante para verem meus filhos
Tenho medo que meus show será um fracasso
Tenho medo que minha namorada não fique grávida no exato momento que queremos
Tenho medo que eu nunca vou atingir meu potencial verdadeiro
Tenho medo que ela ainda ame aquele cara"
Não fui eu quem escreveu o bilhete e a letra não é minha, é de uma pessoa famosa. Não representa exatamente o que eu penso ou sinto no momento mas, quando foi postado no Instagram, muitos disseram que estava depressivo ou que era suicida.
Semana passada fiz 31 anos. Procurei comemorar cada dia pelo menos um pouco, do meu jeito, por uma semana. Minha vida não é perfeita, nem do jeito que eu gostaria exatamente. E também tenho medo de coisas no futuro. Ainda assim, tá tudo bem, porque a vida é assim.
Quando a gente posta qualquer tipo de coisa, coisas boas ou ruins, pessoas julgam, sentem vergonha alheia, inveja, o que seja. Sempre há quem julgue. Pra quem é famoso, como o autor do bilhete, deve ser ainda pior. Porque pessoas famosas, teoricamente, tem vidas boas e maravilhosas. Porém, mesmo elas tem problemas e inseguranças. Todo mundo tem.
Não tô aqui pra dar lição de moral ou dizer que as pessoas são hipócritas. E não quero criticar o ambiente das redes sociais, porque isso já é clichê. Só queria dizer que, assim como há pessoas que julgam, se você tá mal ou com algum problema, sempre tem pessoas para escutar e ajudar. E, de vez em quando, a gente precisa sim ouvir coisas boas, um apoio moral ou ser ajudado. Então, sei lá, só queria deixar uma mensagem positiva aqui. Aproveite a vida, busque coisas boas, seja feliz.
Por fim, fiquei sabendo por acaso de um PM chamado Rayrisson, foi atacado e ficou cadeirante, e resolvi ajudar. Não conheço ele pessoalmente, mas o link da vakinha dele é:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/adaptando-se-a-uma-nova-vida
Se não puder ou não quiser ajudar ele, tem outras pessoas que precisam da sua ajuda também e acho que não custa muito fazer algo assim pelo menos de vez em quando.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Duke Ellington e Trapaça
Não sou uma pessoa com grandes ilusões na vida, nem grandes ambições e desejos. Acho que a única ilusão que verdadeiramente mexe comigo é a do amor romântico. E é uma coisa que tenho tentado trabalhar mais comigo mesmo, para ser menos iludido. Em particular, existe uma fantasia que povoa meus pensamentos.
Há uma cena no filme Trapaça, acerca de Duke Ellington, um artista de jazz famoso, na qual os protagonistas Irving e Sydney se conhecem.
No meio de uma festa, Irving e Sydney se avistam. Ela estica o braço para alcançar um petisco. Ele segura seu braço e pergunta:
- É o Duke Ellington no seu bracelete?
Sydney:
- De fato, é sim. Ele morreu neste ano, você sabe...
Irving:
- Eu sei, duvido que alguma outra pessoa aqui saiba ou se importe com isso.
Sydney:
- Bem, eu me importo. Ele salvou minha vida muitas vezes.
Irving:
- A minha também. Qual delas?
Sydney:
- Jeep's Blues.
Irving:
- Você quer escutar?
Sydney:
- Agora?
Irving:
- Sim.
Sydney:
- Claro.
Então, eles seguem para uma sala mais reservada para escutar Jeep's Blues.
Irving:
- Quem começa uma música dessa maneira?
Sydney:
- É mágica.
Irving concorda:
- É mágica.
Sydney analisa Irving:
"Ele não estava necessariamente em forma, e ele tinha esse penteado que era todo elaborado. Ele tinha essa aura em torno dele. E ele tinha essa autoconfiança que me atraiu. Ele sabia quem era. Ele não se importava."
Irving:
"Como eu, ela era uma pessoa bastante peculiar. Como eu, ela veio de um lugar em que suas opções eram limitadas."
Sydney:
"Na verdade, pode ser meio sexy algumas vezes. Há uma ousadia nisso tudo. Mas aonde essa ousadia me levaria? Eu não sabia, mas eu iria descobrir."
Na continuação da cena, Irving prossegue:
"Ela era diferente de todo mundo que já conheci. Ela era inteligente. Ela via através das pessoas nas situações. E ela sabia viver com paixão e estilo. Ela entendia Duke Ellington."
De alguma maneira, eu ainda espero encontrar a pessoa que entenda Duke Ellington na minha vida. Acho que entender Duke Ellington é uma metáfora excepcional. Pode ser muito mais amplo do que é descrito no filme, mas, ainda assim, a forma como é feito é de uma sensibilidade gigante. O filme mostra, de maneira poética, que podemos nos apaixonar por pessoas reais. Pessoas com defeitos e imperfeitas. Podemos enxergar a pessoa de quem gostamos sob a lente do romantismo. A cena retrata, de maneira elusiva, o momento em que uma pessoa se apaixona por outra. Tem uma certa mágica, mas nem sempre é tão glamouroso.
Entender Duke Ellington não é só saber viver com paixão e estilo. Entender Duke Ellington trata-se de conectar-se ao outro, entender o parceiro, ter sensibilidade e empatia, da mesma forma que a música do mesmo causa esses efeitos e essas sensações. Entender Duke Ellington pode ser uma coisa universal, mas também pode ser muito particular de cada casal. Cada casal tem seu Duke Ellington. Cada casal tem alguma coisa que o conecta e que o aproxima.
Particularmente, para mim, entender Duke Ellington trata-se de desapego. Trata-se de inteligência, de paciência, de companheirismo, de resiliência, de humildade, de alegria e de conseguir enxergar mais do que apenas o seu próprio ponto de vista. Para mim, entender Duke Ellington também significa gostar de Duke Ellington, de fato, e saber apreciar sua música.
Há uma cena no filme Trapaça, acerca de Duke Ellington, um artista de jazz famoso, na qual os protagonistas Irving e Sydney se conhecem.
No meio de uma festa, Irving e Sydney se avistam. Ela estica o braço para alcançar um petisco. Ele segura seu braço e pergunta:
- É o Duke Ellington no seu bracelete?
Sydney:
- De fato, é sim. Ele morreu neste ano, você sabe...
Irving:
- Eu sei, duvido que alguma outra pessoa aqui saiba ou se importe com isso.
Sydney:
- Bem, eu me importo. Ele salvou minha vida muitas vezes.
Irving:
- A minha também. Qual delas?
Sydney:
- Jeep's Blues.
Irving:
- Você quer escutar?
Sydney:
- Agora?
Irving:
- Sim.
Sydney:
- Claro.
Então, eles seguem para uma sala mais reservada para escutar Jeep's Blues.
Irving:
- Quem começa uma música dessa maneira?
Sydney:
- É mágica.
Irving concorda:
- É mágica.
Sydney analisa Irving:
"Ele não estava necessariamente em forma, e ele tinha esse penteado que era todo elaborado. Ele tinha essa aura em torno dele. E ele tinha essa autoconfiança que me atraiu. Ele sabia quem era. Ele não se importava."
Irving:
"Como eu, ela era uma pessoa bastante peculiar. Como eu, ela veio de um lugar em que suas opções eram limitadas."
Sydney:
"Na verdade, pode ser meio sexy algumas vezes. Há uma ousadia nisso tudo. Mas aonde essa ousadia me levaria? Eu não sabia, mas eu iria descobrir."
Na continuação da cena, Irving prossegue:
"Ela era diferente de todo mundo que já conheci. Ela era inteligente. Ela via através das pessoas nas situações. E ela sabia viver com paixão e estilo. Ela entendia Duke Ellington."
De alguma maneira, eu ainda espero encontrar a pessoa que entenda Duke Ellington na minha vida. Acho que entender Duke Ellington é uma metáfora excepcional. Pode ser muito mais amplo do que é descrito no filme, mas, ainda assim, a forma como é feito é de uma sensibilidade gigante. O filme mostra, de maneira poética, que podemos nos apaixonar por pessoas reais. Pessoas com defeitos e imperfeitas. Podemos enxergar a pessoa de quem gostamos sob a lente do romantismo. A cena retrata, de maneira elusiva, o momento em que uma pessoa se apaixona por outra. Tem uma certa mágica, mas nem sempre é tão glamouroso.
Entender Duke Ellington não é só saber viver com paixão e estilo. Entender Duke Ellington trata-se de conectar-se ao outro, entender o parceiro, ter sensibilidade e empatia, da mesma forma que a música do mesmo causa esses efeitos e essas sensações. Entender Duke Ellington pode ser uma coisa universal, mas também pode ser muito particular de cada casal. Cada casal tem seu Duke Ellington. Cada casal tem alguma coisa que o conecta e que o aproxima.
Particularmente, para mim, entender Duke Ellington trata-se de desapego. Trata-se de inteligência, de paciência, de companheirismo, de resiliência, de humildade, de alegria e de conseguir enxergar mais do que apenas o seu próprio ponto de vista. Para mim, entender Duke Ellington também significa gostar de Duke Ellington, de fato, e saber apreciar sua música.
Marcadores:
arte&entretenimento,
opinião,
pessoas,
sentimentos
domingo, 29 de outubro de 2017
Mudanças de narrativa, ressignificação e autoimagem
"Nada acontece no tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu poder mágico. Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, um modo de mútua influência entre os homens."
Nossa memória é seletiva. Dependendo de quem você é e das coisas que acontecem, você acaba lembrando muito mais dos aspectos positivos ou negativos. A forma como contamos as histórias para nós mesmos e para os outros muda completamente a maneira como vemos os fatos e como nos sentimos. Toda mudança de sentimento em relação a coisas e pessoas é acompanhada por uma mudança de narrativa.
"Eu gostava de fulano, mas depois descobri uma coisa que me fez mudar de ideia."
"Eu não gostava de ciclano, mas percebi que ele era diferente do que eu pensava."
Além disso, histórias que contamos sobre nós mesmos quase sempre tendem a proteger nossa autoimagem. Quase ninguém fala algo do tipo "fiz merda porque sou uma pessoa de merda" ou "agi de maneira errada porque realmente não valho nada." O indivíduo que fala esse tipo de coisa é avaliado como alguém que possui uma autoestima reduzida ou que possui problemas de caráter moral. Quase sempre colocamos a culpa sobre nossas decisões ou atitudes ruins em fatores e circunstâncias externas ou que não eram possíveis controlar. No existencialismo, isso é chamado de má fé.
"Agi errado porque estava com raiva."
"Fiz errado porque não me ensinaram."
"Agredi porque me provocaram."
Existe pesquisa que diz que a maioria das pessoas, se perguntada "você se considera uma pessoa mais inteligente que a média?", responde que sim (é chamado de efeito Dunning-Kruger e se aplica a outras áreas também). Essa proteção da autoimagem não é algo errado, é questão de saúde mental. Se uma boa parte das pessoas achasse que possui um valor reduzido, seria um grande problema para elas mesmas. Precisamos recontar nossa própria história quando nos sentimos ameaçados, quando isso nos deixa mal ou para manter uma coerência interna. Precisamos proteger nossa identidade.
Nossa identidade, o que somos e o que pensamos são algumas das coisas mais valiosas que temos. Por isso você vê tanta gente capaz de brigar, discutir e até matar por coisas com as quais se identificam ou contra coisas que ferem sua identidade. É o caso de certas manifestações políticas ou do machão que se descobre corno. E, por isso, algumas pessoas consideram ataques às suas ideias como ataques pessoais.
Prosseguindo, acredito que nossa memória emocional geralmente é mais forte do que a memória dos fatos propriamente dita. Em muitas ocasiões, não lembramos exatamente como aconteceram as coisas, mas podemos nos lembrar de como nos sentimos na hora. Por isso mudar nossa narrativa acaba sendo uma tarefa fácil na maioria dos casos. Não precisamos mudar o que aconteceu, apenas como nos sentimos em relação ao que aconteceu. E, para mudar como nos sentimos, acabamos mudando a narrativa. Acabamos mudando a forma como contamos a história.
Por exemplo, o significado de uma pessoa na sua vida começa a mudar no instante em que a mesma decide terminar um relacionamento amoroso com você. Com isso, muda sua visão sobre ela, mudam as histórias que você conta sobre ela e muda o sentimento que você tem por essas histórias e por essa pessoa. A imagem da pessoa é ressignificada. Você deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é amor. Deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é carinho. Acho isso triste, mas é necessário para que a vida possa seguir.
As narrativas possuem um poder muito forte sobre nossas vidas. A maioria das pessoas não percebe isso. A maioria das pessoas muda as narrativas sem ter consciência. Mudar a narrativa é ressignificar. Ganhar poder sobre suas próprias narrativas significa ter controle sobre sua própria vida. Isso levanta uma série de dúvidas e questionamentos sobre o que é a verdade. Mas deixo essa discussão para um outro momento.
"A memória é uma ilha de edição."
Contém spoilers:
Nossa memória é seletiva. Dependendo de quem você é e das coisas que acontecem, você acaba lembrando muito mais dos aspectos positivos ou negativos. A forma como contamos as histórias para nós mesmos e para os outros muda completamente a maneira como vemos os fatos e como nos sentimos. Toda mudança de sentimento em relação a coisas e pessoas é acompanhada por uma mudança de narrativa.
"Eu gostava de fulano, mas depois descobri uma coisa que me fez mudar de ideia."
"Eu não gostava de ciclano, mas percebi que ele era diferente do que eu pensava."
Além disso, histórias que contamos sobre nós mesmos quase sempre tendem a proteger nossa autoimagem. Quase ninguém fala algo do tipo "fiz merda porque sou uma pessoa de merda" ou "agi de maneira errada porque realmente não valho nada." O indivíduo que fala esse tipo de coisa é avaliado como alguém que possui uma autoestima reduzida ou que possui problemas de caráter moral. Quase sempre colocamos a culpa sobre nossas decisões ou atitudes ruins em fatores e circunstâncias externas ou que não eram possíveis controlar. No existencialismo, isso é chamado de má fé.
"Agi errado porque estava com raiva."
"Fiz errado porque não me ensinaram."
"Agredi porque me provocaram."
Existe pesquisa que diz que a maioria das pessoas, se perguntada "você se considera uma pessoa mais inteligente que a média?", responde que sim (é chamado de efeito Dunning-Kruger e se aplica a outras áreas também). Essa proteção da autoimagem não é algo errado, é questão de saúde mental. Se uma boa parte das pessoas achasse que possui um valor reduzido, seria um grande problema para elas mesmas. Precisamos recontar nossa própria história quando nos sentimos ameaçados, quando isso nos deixa mal ou para manter uma coerência interna. Precisamos proteger nossa identidade.
Nossa identidade, o que somos e o que pensamos são algumas das coisas mais valiosas que temos. Por isso você vê tanta gente capaz de brigar, discutir e até matar por coisas com as quais se identificam ou contra coisas que ferem sua identidade. É o caso de certas manifestações políticas ou do machão que se descobre corno. E, por isso, algumas pessoas consideram ataques às suas ideias como ataques pessoais.
Prosseguindo, acredito que nossa memória emocional geralmente é mais forte do que a memória dos fatos propriamente dita. Em muitas ocasiões, não lembramos exatamente como aconteceram as coisas, mas podemos nos lembrar de como nos sentimos na hora. Por isso mudar nossa narrativa acaba sendo uma tarefa fácil na maioria dos casos. Não precisamos mudar o que aconteceu, apenas como nos sentimos em relação ao que aconteceu. E, para mudar como nos sentimos, acabamos mudando a narrativa. Acabamos mudando a forma como contamos a história.
Por exemplo, o significado de uma pessoa na sua vida começa a mudar no instante em que a mesma decide terminar um relacionamento amoroso com você. Com isso, muda sua visão sobre ela, mudam as histórias que você conta sobre ela e muda o sentimento que você tem por essas histórias e por essa pessoa. A imagem da pessoa é ressignificada. Você deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é amor. Deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é carinho. Acho isso triste, mas é necessário para que a vida possa seguir.
As narrativas possuem um poder muito forte sobre nossas vidas. A maioria das pessoas não percebe isso. A maioria das pessoas muda as narrativas sem ter consciência. Mudar a narrativa é ressignificar. Ganhar poder sobre suas próprias narrativas significa ter controle sobre sua própria vida. Isso levanta uma série de dúvidas e questionamentos sobre o que é a verdade. Mas deixo essa discussão para um outro momento.
"A memória é uma ilha de edição."
Contém spoilers:
Marcadores:
filosofia,
idéias,
opinião,
pessoas,
sentimentos
sábado, 28 de outubro de 2017
BoJack Horseman, quem somos e o que nos satisfaz
Terminei a 4a temporada de BoJack Horseman.
Depois da 1a temporada, acho que a história começa a seguir uma evolução natural. E a questão principal de BoJack começa a se concentrar em um ponto: da responsabilidade que temos sobre aquilo que somos. BoJack continua decepcionando as pessoas e fazendo merda. Ele usa a história e a criação ruim que teve pra justificar quem ele é. A reflexão que BoJack propõe é: até que ponto somos frutos do meio e até que ponto temos a liberdade de sermos o que queremos? Aos poucos é possível ver que BoJack quer realmente mudar e que ele está mudando. Ele quer quebrar o ciclo ao qual se vê preso. Acho que a lição final do desenho é que, não importa se você teve uma vida de merda, você pode ser uma pessoa melhor.
Fora isso, a série tem muitas outras questões menores e se mantém pela riqueza das interações humanas entre os personagens. Uma das outras questões é sobre encontrar satisfação na vida. Cada personagem procura alguma coisa que lhe traga satisfação, pra preencher o vazio em que se encontra. No caso de BoJack, ele tenta, mas não consegue, porque não vê propósito em nada. E, por mais que os outros personagens pareçam diferentes, eles possuem um ponto em comum. Estão sempre insatisfeitos com alguma coisa e os momentos de felicidade que acontecem em suas vidas acabam sendo efêmeros. Todos estão sempre procurando algo. Ninguém consegue ser feliz com o que tem. Acho que isso, no fundo, é uma verdade da vida....
Também queria fazer um comentário sobre as intrincadas interações humanas. BoJack, apesar de odiar sua mãe, no último instante, apresenta um momento de compaixão. É uma colocação sutil que, para quem não tem sensibilidade, passa despercebida. Mas, por essas e outras situações na série, é possível ver que há beleza naquilo que é simples, como um sentimento. E que a simplicidade e a complexidade muitas vezes flertam e interagem de maneira confusa, resultando em situações que não são muito claras.
Por fim, queria poder falar que o amor sempre vence no final, mas isto seria mentira.
Depois da 1a temporada, acho que a história começa a seguir uma evolução natural. E a questão principal de BoJack começa a se concentrar em um ponto: da responsabilidade que temos sobre aquilo que somos. BoJack continua decepcionando as pessoas e fazendo merda. Ele usa a história e a criação ruim que teve pra justificar quem ele é. A reflexão que BoJack propõe é: até que ponto somos frutos do meio e até que ponto temos a liberdade de sermos o que queremos? Aos poucos é possível ver que BoJack quer realmente mudar e que ele está mudando. Ele quer quebrar o ciclo ao qual se vê preso. Acho que a lição final do desenho é que, não importa se você teve uma vida de merda, você pode ser uma pessoa melhor.
Fora isso, a série tem muitas outras questões menores e se mantém pela riqueza das interações humanas entre os personagens. Uma das outras questões é sobre encontrar satisfação na vida. Cada personagem procura alguma coisa que lhe traga satisfação, pra preencher o vazio em que se encontra. No caso de BoJack, ele tenta, mas não consegue, porque não vê propósito em nada. E, por mais que os outros personagens pareçam diferentes, eles possuem um ponto em comum. Estão sempre insatisfeitos com alguma coisa e os momentos de felicidade que acontecem em suas vidas acabam sendo efêmeros. Todos estão sempre procurando algo. Ninguém consegue ser feliz com o que tem. Acho que isso, no fundo, é uma verdade da vida....
Também queria fazer um comentário sobre as intrincadas interações humanas. BoJack, apesar de odiar sua mãe, no último instante, apresenta um momento de compaixão. É uma colocação sutil que, para quem não tem sensibilidade, passa despercebida. Mas, por essas e outras situações na série, é possível ver que há beleza naquilo que é simples, como um sentimento. E que a simplicidade e a complexidade muitas vezes flertam e interagem de maneira confusa, resultando em situações que não são muito claras.
Por fim, queria poder falar que o amor sempre vence no final, mas isto seria mentira.
Marcadores:
arte&entretenimento,
opinião,
pessoas
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
BoJack Horseman, aparentes contradições e o desejo de ser amado
Ontem terminei de ver a primeira temporada de BoJack Horseman.
O enredo em si não aparenta ser nada espetacular, pelo contrário, parece até ser meio ridículo. É sobre um cavalo antropomórfico que foi sucesso em uma série de TV dos anos 90, do tipo "Três é demais". Ele fica rico e depois cai no ostracismo, passando a vida bebendo, fazendo coisas de moral duvidosa e jogando dinheiro fora. Porém, muitas vezes, o que importa não é o "quê", e sim o "como".
Para mim, o ponto alto do desenho é a construção dos personagens. Todos eles parecem usar máscaras para disfarçar fraquezas e aquilo que não gostam em si mesmos. Por isso, acabam adotando ou perseguindo posturas que são o contrário do que são. Aparentemente, isso gera uma série de contradições em suas personalidades, contudo, há um sentido na forma em que agem. O fato de alguns serem retratados como animais apenas reforça certas características.
Princess Carolyn aparenta ser uma mulher forte e independente, mas, no fundo, é carente. Diane quer ser bem sucedida para que sua família tenha orgulho dela. Todd quer fazer coisas grandiosas porque não quer ser um idiota inútil. Mr. Peanutbutter está sempre feliz e animado para esconder o vazio que é sua vida. E BoJack.... BoJack é narcisista e egoísta e, por isso, as pessoas não gostam dele. Tudo isso para se reafirmar diante de sua baixa autoestima, medo da solidão e da vontade de ser aceito pelos outros.
Um tema que eu vejo em comum a todos os personagens é o desejo de ser amado, de uma maneira ou de outra. De certa forma, acho que isso é uma reprodução da realidade. Todo mundo quer ser aceito como é, com seus defeitos e tudo mais. No entanto, todo mundo tenta escondê-los e ninguém quer se mostrar vulnerável. No fim, a vida acaba sendo cheia de desencontros. Pessoas magoam umas às outras e se isolam. E, às vezes, aparentamos muito mais estar fugindo de alguma coisa do que perseguindo algo de fato.
"Do que tens medo? Do que foges?"
O enredo em si não aparenta ser nada espetacular, pelo contrário, parece até ser meio ridículo. É sobre um cavalo antropomórfico que foi sucesso em uma série de TV dos anos 90, do tipo "Três é demais". Ele fica rico e depois cai no ostracismo, passando a vida bebendo, fazendo coisas de moral duvidosa e jogando dinheiro fora. Porém, muitas vezes, o que importa não é o "quê", e sim o "como".
Para mim, o ponto alto do desenho é a construção dos personagens. Todos eles parecem usar máscaras para disfarçar fraquezas e aquilo que não gostam em si mesmos. Por isso, acabam adotando ou perseguindo posturas que são o contrário do que são. Aparentemente, isso gera uma série de contradições em suas personalidades, contudo, há um sentido na forma em que agem. O fato de alguns serem retratados como animais apenas reforça certas características.
Princess Carolyn aparenta ser uma mulher forte e independente, mas, no fundo, é carente. Diane quer ser bem sucedida para que sua família tenha orgulho dela. Todd quer fazer coisas grandiosas porque não quer ser um idiota inútil. Mr. Peanutbutter está sempre feliz e animado para esconder o vazio que é sua vida. E BoJack.... BoJack é narcisista e egoísta e, por isso, as pessoas não gostam dele. Tudo isso para se reafirmar diante de sua baixa autoestima, medo da solidão e da vontade de ser aceito pelos outros.
Um tema que eu vejo em comum a todos os personagens é o desejo de ser amado, de uma maneira ou de outra. De certa forma, acho que isso é uma reprodução da realidade. Todo mundo quer ser aceito como é, com seus defeitos e tudo mais. No entanto, todo mundo tenta escondê-los e ninguém quer se mostrar vulnerável. No fim, a vida acaba sendo cheia de desencontros. Pessoas magoam umas às outras e se isolam. E, às vezes, aparentamos muito mais estar fugindo de alguma coisa do que perseguindo algo de fato.
"Do que tens medo? Do que foges?"
Marcadores:
arte&entretenimento,
opinião,
pessoas
domingo, 15 de outubro de 2017
Coragem e Indiferença
Algumas vezes queremos fazer algo, mas temos medo. Nessas horas, buscamos a coragem. Tentamos sobrepujar o medo com pura força de vontade.
Às vezes dá certo. Às vezes nos jogamos no abismo sem saber o que esperar.
Às vezes o medo nos paralisa. Às vezes acabamos fugindo.
Porém, uma coisa é certa: não há coragem sem medo. Só ao sentir o medo, podemos criar a coragem. São duas faces da mesma moeda, surgem da mesma circunstância.
Porém, existe uma outra alternativa: a indiferença. A indiferença é a verdadeira antítese ao par coragem/medo.
Quem sente coragem consegue até seguir em frente, mas, no fundo, continua sentindo medo.
Quem é indiferente não teme e também não precisa de coragem. É livre para fazer o que quer.
Ao invés de buscar a coragem, busque a indiferença na sua vida. Tente ver as coisas sob a óptica de alguém de fora, que não se importa com as consequências. Isso torna certas decisões muito mais fáceis.
Às vezes dá certo. Às vezes nos jogamos no abismo sem saber o que esperar.
Às vezes o medo nos paralisa. Às vezes acabamos fugindo.
Porém, uma coisa é certa: não há coragem sem medo. Só ao sentir o medo, podemos criar a coragem. São duas faces da mesma moeda, surgem da mesma circunstância.
Porém, existe uma outra alternativa: a indiferença. A indiferença é a verdadeira antítese ao par coragem/medo.
Quem sente coragem consegue até seguir em frente, mas, no fundo, continua sentindo medo.
Quem é indiferente não teme e também não precisa de coragem. É livre para fazer o que quer.
Ao invés de buscar a coragem, busque a indiferença na sua vida. Tente ver as coisas sob a óptica de alguém de fora, que não se importa com as consequências. Isso torna certas decisões muito mais fáceis.
sábado, 7 de outubro de 2017
Paradoxo da liberdade
Felicidade pressupõe liberdade. Em geral, quem é mais livre é mais feliz. No entanto, a angústia nasce justamente dessa mesma liberdade de escolha.
Barry Schwartz é um psicólogo que escreveu um livro chamado "O Paradoxo da Escolha". Nele, ele fala como, na sociedade atual, com toda nossa liberdade de escolhas e de deliberação, muitas vezes as pessoas acabam mais tristes, infelizes ou oprimidas.
Oprimidas pela escolha, pois quando você é obrigado a escolher, escolhas insignificantes acabam se tornando trabalhosas, tomando tempo desnecessário, e escolhas importantes acabam se tornando "impossíveis" de se fazer, por medo de escolher a opção errada e ter que colher as consequências disso. Ademais, a infinidade de coisas e de opções para que possamos escolher às vezes nos paralisa, causando inação. Nos sentimos perdidos, desamparados. Vemos despropósito na existência de algumas escolhas. Por que temos que escolher o que escolhemos?
O historiador Leandro Karnal faz uma reflexão sobre o trabalho de Étienne de la Boétie, o “discurso da servidão voluntária”. Ele diz que muitas vezes, abrimos mãos da nossa liberdade de escolha e entregamos a outrem por ser mais confortável ou por não nos sentirmos capazes de deliberar. Abrir mão da liberdade de escolha às vezes é libertador, principalmente na sociedade de hoje, em que há tanta coisa a escolher. Existencialistas talvez condenariam isso. Diriam que é má fé abrir mão da nossa agência sobre o mundo. Mas eu acho que abrir mão de escolher também pode ser uma escolha e não é uma escolha imoral.
Queria também falar sobre o exemplo que o Barry dá sobre as calças jeans. Na palestra ele diz que antigamente só havia um tipo de calças jeans para comprar nas lojas. Era uma calça horrorosa, não vestia bem, não era confortável, mas, com o tempo, ela ía se adaptando ao corpo. Você só comprava outra quando elas ficavam velhas mesmo. Outro dia ele foi comprar calças jeans novas para ele. Chegou na loja e viu que, atualmente, há um infinidade de tipos de calças. Apesar de ter comprado uma calça muito melhor do que ele jamais teve na vida, ele saiu da loja se sentindo infeliz, miserável. Simplesmente porque achou que, dada a quantidade de opções, poderia ter escolhido melhor. A multitude de opções faz com que elevemos nossas expectativas em relação ao resultado das nossas escolhas. E quando a expectativa é muito alta, mesmo que o resultado seja bom, ainda assim nos sentimos insatisfeitos.
Podemos aplicar isso às relações amorosas que temos hoje em dia. Se tornaram descartáveis, pois, pelo nosso leque e liberdade de escolhas, acabamos achando que não estamos com o par ideal. Sempre achamos que podemos escolher melhor e acabamos sozinhos e infelizes. Infelizmente, o amor virou "produto" de nossas escolhas em um sentido mais literal.
A solução? Talvez recorrer mais ao epicurismo. Viver uma vida buscando as coisas e prazeres mais simples, diminuindo nossas expectativas sobre a forma que o mundo deve ser e sobre o que o mundo nos deve. Talvez também devemos ser mais resignados e nos contentar com soluções que nem sempre vão ser as melhores em todas as situações, tentando, por outro lado, não cair na mediocridade. Equilíbrio é a chave.
Barry Schwartz é um psicólogo que escreveu um livro chamado "O Paradoxo da Escolha". Nele, ele fala como, na sociedade atual, com toda nossa liberdade de escolhas e de deliberação, muitas vezes as pessoas acabam mais tristes, infelizes ou oprimidas.
Oprimidas pela escolha, pois quando você é obrigado a escolher, escolhas insignificantes acabam se tornando trabalhosas, tomando tempo desnecessário, e escolhas importantes acabam se tornando "impossíveis" de se fazer, por medo de escolher a opção errada e ter que colher as consequências disso. Ademais, a infinidade de coisas e de opções para que possamos escolher às vezes nos paralisa, causando inação. Nos sentimos perdidos, desamparados. Vemos despropósito na existência de algumas escolhas. Por que temos que escolher o que escolhemos?
O historiador Leandro Karnal faz uma reflexão sobre o trabalho de Étienne de la Boétie, o “discurso da servidão voluntária”. Ele diz que muitas vezes, abrimos mãos da nossa liberdade de escolha e entregamos a outrem por ser mais confortável ou por não nos sentirmos capazes de deliberar. Abrir mão da liberdade de escolha às vezes é libertador, principalmente na sociedade de hoje, em que há tanta coisa a escolher. Existencialistas talvez condenariam isso. Diriam que é má fé abrir mão da nossa agência sobre o mundo. Mas eu acho que abrir mão de escolher também pode ser uma escolha e não é uma escolha imoral.
Queria também falar sobre o exemplo que o Barry dá sobre as calças jeans. Na palestra ele diz que antigamente só havia um tipo de calças jeans para comprar nas lojas. Era uma calça horrorosa, não vestia bem, não era confortável, mas, com o tempo, ela ía se adaptando ao corpo. Você só comprava outra quando elas ficavam velhas mesmo. Outro dia ele foi comprar calças jeans novas para ele. Chegou na loja e viu que, atualmente, há um infinidade de tipos de calças. Apesar de ter comprado uma calça muito melhor do que ele jamais teve na vida, ele saiu da loja se sentindo infeliz, miserável. Simplesmente porque achou que, dada a quantidade de opções, poderia ter escolhido melhor. A multitude de opções faz com que elevemos nossas expectativas em relação ao resultado das nossas escolhas. E quando a expectativa é muito alta, mesmo que o resultado seja bom, ainda assim nos sentimos insatisfeitos.
Podemos aplicar isso às relações amorosas que temos hoje em dia. Se tornaram descartáveis, pois, pelo nosso leque e liberdade de escolhas, acabamos achando que não estamos com o par ideal. Sempre achamos que podemos escolher melhor e acabamos sozinhos e infelizes. Infelizmente, o amor virou "produto" de nossas escolhas em um sentido mais literal.
A solução? Talvez recorrer mais ao epicurismo. Viver uma vida buscando as coisas e prazeres mais simples, diminuindo nossas expectativas sobre a forma que o mundo deve ser e sobre o que o mundo nos deve. Talvez também devemos ser mais resignados e nos contentar com soluções que nem sempre vão ser as melhores em todas as situações, tentando, por outro lado, não cair na mediocridade. Equilíbrio é a chave.
Sobre mudanças
Tudo no mundo é exatamente do jeito que você acha que é. Exceto quando não é.
Você é do tipo de pessoa que costuma se questionar sobre suas próprias convicções? Faça um exercício... Tente encontrar uma crença sua que você acha que talvez não esteja certo sobre. Que não simplesmente esteja em dúvida, mas esteja errado. É possível? Que crença é essa?
Na minha vida, eu sempre segui um script. O caminho mais seguro. Até que esse caminho me levou a uma situação de infelicidade. Hoje em dia, eu percebo uma coisa. Mudanças não são opcionais. Tudo que muda, muda obrigatoriamente porque é necessário mudar. As pessoas que tomam riscos, que abrem mão de segurança para buscar algo a mais... Se você perguntar para elas, elas vão dizer que foi por opção delas e que elas conquistaram o que conquistaram por vontade própria. Mas, na verdade, o fazem porque não conseguem ser de outro jeito. É da natureza delas. É a natureza das coisas.
Steve Jobs foi quem foi porque era pra ser assim. Se tivessem pedido para ele: "Steve, não seja quem você é. Seja outra pessoa.", acredito que não funcionaria. Exceto se ele fosse obrigado por alguma circunstância. Steve Jobs só poderia ter sido Steve Jobs. Apenas se a história fosse diferente, Steve seria diferente. Seria como poderia ser, dado um outro contexto.
Todo mundo que muda alguma coisa, muda porque sente vontade ou necessidade, e vontade e necessidade não podem ser controladas, simplesmente surgem sem que tenhamos controle. Percebo também que as maiores mudanças, as mudanças mais profundas, geralmente advém das situações mais agudas, das condições mais extremas. Para alguém que está no poço do desespero só há duas saídas, o fim ou a renovação, a luta. Pessoas e animais que estão acuados, pressionados, intimidados, tendem a tomar atitudes mais radicais. As situações causam as mudanças.
Claro, nem sempre mudanças são tão bruscas assim. Porém, olhando para trás, vejo que as principais mudanças que ocorreram na minha vida foram devido a momentos em que houve uma ruptura no contexto geral. Mais ainda, essas rupturas às vezes surgem de eventos aparentemente pequenos, mas que servem como gatilhos e crescem em um efeito dominó.
Para concluir, quem é que muda? Só muda quem pode mudar. Só muda quem tem liberdade e possibilidade de mudar. Uma vez que haja a liberdade e a vontade ou a necessidade, não há caminho de volta. A mudança se torna inevitável.
Você é do tipo de pessoa que costuma se questionar sobre suas próprias convicções? Faça um exercício... Tente encontrar uma crença sua que você acha que talvez não esteja certo sobre. Que não simplesmente esteja em dúvida, mas esteja errado. É possível? Que crença é essa?
Na minha vida, eu sempre segui um script. O caminho mais seguro. Até que esse caminho me levou a uma situação de infelicidade. Hoje em dia, eu percebo uma coisa. Mudanças não são opcionais. Tudo que muda, muda obrigatoriamente porque é necessário mudar. As pessoas que tomam riscos, que abrem mão de segurança para buscar algo a mais... Se você perguntar para elas, elas vão dizer que foi por opção delas e que elas conquistaram o que conquistaram por vontade própria. Mas, na verdade, o fazem porque não conseguem ser de outro jeito. É da natureza delas. É a natureza das coisas.
Steve Jobs foi quem foi porque era pra ser assim. Se tivessem pedido para ele: "Steve, não seja quem você é. Seja outra pessoa.", acredito que não funcionaria. Exceto se ele fosse obrigado por alguma circunstância. Steve Jobs só poderia ter sido Steve Jobs. Apenas se a história fosse diferente, Steve seria diferente. Seria como poderia ser, dado um outro contexto.
Todo mundo que muda alguma coisa, muda porque sente vontade ou necessidade, e vontade e necessidade não podem ser controladas, simplesmente surgem sem que tenhamos controle. Percebo também que as maiores mudanças, as mudanças mais profundas, geralmente advém das situações mais agudas, das condições mais extremas. Para alguém que está no poço do desespero só há duas saídas, o fim ou a renovação, a luta. Pessoas e animais que estão acuados, pressionados, intimidados, tendem a tomar atitudes mais radicais. As situações causam as mudanças.
Claro, nem sempre mudanças são tão bruscas assim. Porém, olhando para trás, vejo que as principais mudanças que ocorreram na minha vida foram devido a momentos em que houve uma ruptura no contexto geral. Mais ainda, essas rupturas às vezes surgem de eventos aparentemente pequenos, mas que servem como gatilhos e crescem em um efeito dominó.
Para concluir, quem é que muda? Só muda quem pode mudar. Só muda quem tem liberdade e possibilidade de mudar. Uma vez que haja a liberdade e a vontade ou a necessidade, não há caminho de volta. A mudança se torna inevitável.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Regressão
A vida é engraçada, não se trata de evolução linear.
Praticamente toda pessoa que vive adquire uma biblioteca de conhecimentos em sua cabeça. Por ano, várias bibliotecas se perdem com a morte das pessoas e vários conhecimentos específicos se perdem.
Mas enfim, nem tudo que se aprende é pra sempre. Certas lições importantes são apagadas com o tempo. Esquecemos, desaprendemos. Não é necessariamente um defeito. Às vezes precisamos desaprender certas coisas para aprender outras.
A impressão que tenho é que estive regredindo em alguns aspectos nos últimos 1~2 anos. Me tornei uma pessoa mais orgulhosa, impaciente, rancorosa, descontrolada, indisciplinada, obsessiva e desaprendi lições valiosas. Passei por coisas e reagi de maneira totalmente inesperada, de uma forma que nunca me imaginaria fazendo. Não consegui me reconhecer nas minhas próprias atitudes e perdi o controle em alguns instantes.
Agora, com a mente mais tranquila, eu consigo ver as coisas mais claramente. Coloco aqui, como exemplo, dois vídeos que me ajudaram a me enxergar novamente. São vídeos que vi há alguns anos, mas que recentemente tive que rever para relembrar.
https://www.youtube.com/watch?v=3VpM5EgNuCY
https://www.youtube.com/watch?v=OWYovDRt8tI&feature=youtu.be&t=336 (possui legendas, basta ativar)
Nesse período recente da minha vida, desaprendi a me observar. Desaprendi a olhar para dentro, focar na forma como vejo o mundo e reajo diante dos acontecimentos. Passei a voltar meu olhar para fora. Ao nos observar, conseguimos perceber nossos defeitos e criar auto-controle quando sentimos que algo vai mal.
Outra lição a relembrar: "shikata ga nai". "Shikata ga nai" é uma frase em japonês que significa algo como "não há nada que pode ser feito". De certa forma, na opinião de alguns, reflete o aspecto da cultura japonesa de aceitação e submissão. Mas há sabedoria nessa frase. Há coisas no mundo que não podemos controlar e sobre as quais nada podemos fazer. De que adiantaria se frustrar então? O que não se pode mudar, aceita-se. Por momentos, esqueci dessa lição de aceitação. Isso se aplica em particular ao passado. "O que acontece é real. O que você pensa que deveria ter acontecido não é". Simples assim.
Uma outra questão relacionada à aceitação, porém, mais específica, trata-se de aceitar as pessoas. Achei que o mundo me devia alguma coisa e fiquei esperando por certos comportamentos das pessoas. Mas, não, o mundo não me deve nada e eu não posso cobrar das pessoas mais do que elas podem me dar. Todos tem suas limitações e reconhecer isso, às vezes, é difícil. Sempre esperamos que as pessoas vão agir da mesma forma como agimos com elas, mas isso é ilusão. Sempre cobramos das pessoas o que cobramos de nós mesmos, como se fôssemos padrões de como o ser humano deveria ser ou agir.
A última coisa: felicidade vem de dentro. Não há ninguém no mundo que pode me fazer feliz que não seja eu mesmo. Se eu não estou bem, então nada ficará bem também. Por isso a forma como eu me vejo e como eu vejo o mundo é tão importante. Por isso é tão importante olhar mais para dentro e esperar menos do mundo. O modo como você conta uma história e o modo como você reage diante de uma situação diz mais sobre você mesmo do que sobre o contexto em si. É necessário mudar.
Dizem que em alguns casos é importante dar um passo para trás para dar dois para frente. Normalmente não acredito em clichês ou fórmulas prontas. Estou dando meu primeiro passo agora. Já começo a me sentir uma pessoa mais tranquila e equilibrada. Veremos se haverá um segundo.
Praticamente toda pessoa que vive adquire uma biblioteca de conhecimentos em sua cabeça. Por ano, várias bibliotecas se perdem com a morte das pessoas e vários conhecimentos específicos se perdem.
Mas enfim, nem tudo que se aprende é pra sempre. Certas lições importantes são apagadas com o tempo. Esquecemos, desaprendemos. Não é necessariamente um defeito. Às vezes precisamos desaprender certas coisas para aprender outras.
A impressão que tenho é que estive regredindo em alguns aspectos nos últimos 1~2 anos. Me tornei uma pessoa mais orgulhosa, impaciente, rancorosa, descontrolada, indisciplinada, obsessiva e desaprendi lições valiosas. Passei por coisas e reagi de maneira totalmente inesperada, de uma forma que nunca me imaginaria fazendo. Não consegui me reconhecer nas minhas próprias atitudes e perdi o controle em alguns instantes.
Agora, com a mente mais tranquila, eu consigo ver as coisas mais claramente. Coloco aqui, como exemplo, dois vídeos que me ajudaram a me enxergar novamente. São vídeos que vi há alguns anos, mas que recentemente tive que rever para relembrar.
https://www.youtube.com/watch?v=3VpM5EgNuCY
https://www.youtube.com/watch?v=OWYovDRt8tI&feature=youtu.be&t=336 (possui legendas, basta ativar)
Nesse período recente da minha vida, desaprendi a me observar. Desaprendi a olhar para dentro, focar na forma como vejo o mundo e reajo diante dos acontecimentos. Passei a voltar meu olhar para fora. Ao nos observar, conseguimos perceber nossos defeitos e criar auto-controle quando sentimos que algo vai mal.
Outra lição a relembrar: "shikata ga nai". "Shikata ga nai" é uma frase em japonês que significa algo como "não há nada que pode ser feito". De certa forma, na opinião de alguns, reflete o aspecto da cultura japonesa de aceitação e submissão. Mas há sabedoria nessa frase. Há coisas no mundo que não podemos controlar e sobre as quais nada podemos fazer. De que adiantaria se frustrar então? O que não se pode mudar, aceita-se. Por momentos, esqueci dessa lição de aceitação. Isso se aplica em particular ao passado. "O que acontece é real. O que você pensa que deveria ter acontecido não é". Simples assim.
Uma outra questão relacionada à aceitação, porém, mais específica, trata-se de aceitar as pessoas. Achei que o mundo me devia alguma coisa e fiquei esperando por certos comportamentos das pessoas. Mas, não, o mundo não me deve nada e eu não posso cobrar das pessoas mais do que elas podem me dar. Todos tem suas limitações e reconhecer isso, às vezes, é difícil. Sempre esperamos que as pessoas vão agir da mesma forma como agimos com elas, mas isso é ilusão. Sempre cobramos das pessoas o que cobramos de nós mesmos, como se fôssemos padrões de como o ser humano deveria ser ou agir.
A última coisa: felicidade vem de dentro. Não há ninguém no mundo que pode me fazer feliz que não seja eu mesmo. Se eu não estou bem, então nada ficará bem também. Por isso a forma como eu me vejo e como eu vejo o mundo é tão importante. Por isso é tão importante olhar mais para dentro e esperar menos do mundo. O modo como você conta uma história e o modo como você reage diante de uma situação diz mais sobre você mesmo do que sobre o contexto em si. É necessário mudar.
Dizem que em alguns casos é importante dar um passo para trás para dar dois para frente. Normalmente não acredito em clichês ou fórmulas prontas. Estou dando meu primeiro passo agora. Já começo a me sentir uma pessoa mais tranquila e equilibrada. Veremos se haverá um segundo.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Conversa com a Jessica, escolhas difíceis e identidade
Uns dias atrás estava conversando com uma amiga.
Estava falando que, em algumas situações, pensar no futuro distante pode apenas te fazer se desesperar. Nessas horas é importante se deter ao futuro mais imediato, porque a gente só consegue dar um passo de cada vez. Pé ante pé, passo a passo, percorremos quilômetros.
Comentei também que uma pessoa só é fracassada quando ela abraça o fracasso. Lembrei de uma frase que ouvi de um ultramaratonista uma vez: "a dor é passageira, desistir é para sempre". Então, mesmo que você não seja bem sucedido no que faz, em certos casos, apenas por saber que você deu o melhor já é o suficiente. Se você desiste, talvez tenha que conviver com a culpa por algum tempo. Se você persevera, é possível chegar ao final de alguma provação e ficar satisfeito consigo mesmo, ainda que tenha falhado. E a leveza de consciência, para mim, vale mais do que qualquer sofrimento passageiro.
Também falamos que certas coisas na vida são difíceis de conseguir e que é necessário ser forte para obtê-las. Na hora em que você mais quer desistir é a hora em que você tem que brilhar, que tem que surgir sua força de vontade. E isso se estende para diversos aspectos da nossa vida, não se aplica apenas a simples atividades. Por exemplo, ser uma boa pessoa e fazer o que é certo pode ser difícil hoje em dia. Há possibilidade de que você se prejudique em várias situações apenas por tentar agir da maneira correta. Porém, se você desiste e acaba tomando as decisões erradas, então, no fundo, isso significa que você não é realmente uma boa pessoa. São nos momentos de provação que descobrimos quem somos de verdade e que criamos identidade.
Por um acaso, ontem vi um vídeo do TED, cujo link coloco abaixo:
http://www.ted.com/talks/ruth_chang_how_to_make_hard_choices
Ruth Chang fala como criamos identidade a partir de escolhas difíceis.
O engraçado é que, depois de um tempo, quando ficamos mais maduros e criamos uma identidade que imaginamos que temos, várias escolhas difíceis passam a se tornar fáceis. Uma pessoa que se identifica como urbana normalmente não pensaria duas vezes em recusar a troca de um emprego em uma cidade grande por um no interior caso não houvesse algum fator de apelo elevado. Deixamos de vestir roupas, fazer coisas e conhecer pessoas por achar que não combinam com a gente.
Criar identidade é importante para acharmos nosso lugar no mundo, estabelecer conexões e, claro, ser feliz. No entanto, reconheço que a força de algumas pessoas está ligada à sua capacidade de desapegar de sua própria identidade e se reinventar. Se não estamos felizes, às vezes é necessário mudar coisas que não imaginamos que seria possível, abandonando auto-imagens às quais nos apegamos tanto.
Acabei divagando e este post acabou ficando maior do que o usual e do que gostaria, mas acho que a reflexão foi interessante.
Estava falando que, em algumas situações, pensar no futuro distante pode apenas te fazer se desesperar. Nessas horas é importante se deter ao futuro mais imediato, porque a gente só consegue dar um passo de cada vez. Pé ante pé, passo a passo, percorremos quilômetros.
Comentei também que uma pessoa só é fracassada quando ela abraça o fracasso. Lembrei de uma frase que ouvi de um ultramaratonista uma vez: "a dor é passageira, desistir é para sempre". Então, mesmo que você não seja bem sucedido no que faz, em certos casos, apenas por saber que você deu o melhor já é o suficiente. Se você desiste, talvez tenha que conviver com a culpa por algum tempo. Se você persevera, é possível chegar ao final de alguma provação e ficar satisfeito consigo mesmo, ainda que tenha falhado. E a leveza de consciência, para mim, vale mais do que qualquer sofrimento passageiro.
Também falamos que certas coisas na vida são difíceis de conseguir e que é necessário ser forte para obtê-las. Na hora em que você mais quer desistir é a hora em que você tem que brilhar, que tem que surgir sua força de vontade. E isso se estende para diversos aspectos da nossa vida, não se aplica apenas a simples atividades. Por exemplo, ser uma boa pessoa e fazer o que é certo pode ser difícil hoje em dia. Há possibilidade de que você se prejudique em várias situações apenas por tentar agir da maneira correta. Porém, se você desiste e acaba tomando as decisões erradas, então, no fundo, isso significa que você não é realmente uma boa pessoa. São nos momentos de provação que descobrimos quem somos de verdade e que criamos identidade.
Por um acaso, ontem vi um vídeo do TED, cujo link coloco abaixo:
http://www.ted.com/talks/ruth_chang_how_to_make_hard_choices
Ruth Chang fala como criamos identidade a partir de escolhas difíceis.
O engraçado é que, depois de um tempo, quando ficamos mais maduros e criamos uma identidade que imaginamos que temos, várias escolhas difíceis passam a se tornar fáceis. Uma pessoa que se identifica como urbana normalmente não pensaria duas vezes em recusar a troca de um emprego em uma cidade grande por um no interior caso não houvesse algum fator de apelo elevado. Deixamos de vestir roupas, fazer coisas e conhecer pessoas por achar que não combinam com a gente.
Criar identidade é importante para acharmos nosso lugar no mundo, estabelecer conexões e, claro, ser feliz. No entanto, reconheço que a força de algumas pessoas está ligada à sua capacidade de desapegar de sua própria identidade e se reinventar. Se não estamos felizes, às vezes é necessário mudar coisas que não imaginamos que seria possível, abandonando auto-imagens às quais nos apegamos tanto.
Acabei divagando e este post acabou ficando maior do que o usual e do que gostaria, mas acho que a reflexão foi interessante.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Sensibilidade
"Really don't mind if you sit this one out
My word but a whisper, your deafness a shout
I may make you feel but I can't make you think
Your sperm's in the gutter, your love's in the sink"
Ter sensibilidade é perceber as sutilezas da vida e entender que detalhes podem fazer toda a diferença. Afinal, o que é diferente chama a atenção e se destaca.
Se você não vê o lado poético da vida, você não é feliz. No máximo tem um senso hedonístico de felicidade. Porém, a vida também não é para os fracos de coração. Merda acontece.
My word but a whisper, your deafness a shout
I may make you feel but I can't make you think
Your sperm's in the gutter, your love's in the sink"
Ter sensibilidade é perceber as sutilezas da vida e entender que detalhes podem fazer toda a diferença. Afinal, o que é diferente chama a atenção e se destaca.
Se você não vê o lado poético da vida, você não é feliz. No máximo tem um senso hedonístico de felicidade. Porém, a vida também não é para os fracos de coração. Merda acontece.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Conversa e sexo
Mulheres gostam de sexo.
Contudo, mulheres gostam mais de conversar do que fazer sexo, porque acham que, ao conversar, elas estão criando verdadeira conexão com parceiro.
Homens gostam de sexo.
Homens gostam de conversar também.
Porém, homens acham que conversar eles podem fazer com qualquer um.
Sexo eles só podem fazer com a companheira.
Não que eles achem que a companheira só sirva para sexo, mas o sexo é o diferencial da relação.
Para a mulher, não.
(Este texto não se aplica a todo mundo, mas acredito que ele descreve muitas relações.)
Contudo, mulheres gostam mais de conversar do que fazer sexo, porque acham que, ao conversar, elas estão criando verdadeira conexão com parceiro.
Homens gostam de sexo.
Homens gostam de conversar também.
Porém, homens acham que conversar eles podem fazer com qualquer um.
Sexo eles só podem fazer com a companheira.
Não que eles achem que a companheira só sirva para sexo, mas o sexo é o diferencial da relação.
Para a mulher, não.
(Este texto não se aplica a todo mundo, mas acredito que ele descreve muitas relações.)
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Natal
O Natal pareceu que nem vinha este ano.
Pareceu que não queria vir.
Os dias foram se arrastando e, quando vi, o Chester estava em cima da mesa, assado e pronto para comer.
Foi um Natal sem clima de Natal.
Mas foi bom, foi diferente.
Fiquei até meia-noite e meia na casa do meu pai, com ele, meu tio e minha avó.
Percebi o quanto a família dele é diferente da família da minha mãe.
E percebo também, este ano, que apesar do lado capitalista do Natal do qual muitos reclamam, que ele ainda mantém esse lado bom, de juntar as famílias.
Porque, afinal de contas, família é o mais importante que há, pelo menos para mim.
E que bom que há pelo menos um dia, um único dia no ano, que dedicamos às nossas famílias e outras coisas positivas.
Bem que poderiam ser mais, mas nunca nos lembramos ou nos esforçamos por isso.
Enfim, Feliz Natal a todos que lerem este humilde post, que não poderia deixar de ser um desses clichês de final de ano.
Ano novo está aí, juízo a todos.
Pareceu que não queria vir.
Os dias foram se arrastando e, quando vi, o Chester estava em cima da mesa, assado e pronto para comer.
Foi um Natal sem clima de Natal.
Mas foi bom, foi diferente.
Fiquei até meia-noite e meia na casa do meu pai, com ele, meu tio e minha avó.
Percebi o quanto a família dele é diferente da família da minha mãe.
E percebo também, este ano, que apesar do lado capitalista do Natal do qual muitos reclamam, que ele ainda mantém esse lado bom, de juntar as famílias.
Porque, afinal de contas, família é o mais importante que há, pelo menos para mim.
E que bom que há pelo menos um dia, um único dia no ano, que dedicamos às nossas famílias e outras coisas positivas.
Bem que poderiam ser mais, mas nunca nos lembramos ou nos esforçamos por isso.
Enfim, Feliz Natal a todos que lerem este humilde post, que não poderia deixar de ser um desses clichês de final de ano.
Ano novo está aí, juízo a todos.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Loucura e Vontades

- Madness? This is SPARTA!!!
Vai dizer que você nunca quis fazer algo assim?
Como tava conversando com o Limongi outro dia, acho que todo mundo tem umas vontades loucas de vez em quando, não?
Tipo quando você tá no carro, segurando o celular na mão e dá vontade de jogar ele pela janela pelo simples prazer de ver o caos e a destruição.
Ou quando tá passando uma pessoa na rua que você nem conhece e nunca viu na vida e te dá vontade de dar um soco na cara dela ou então uma voadora.
Fora outras coisas menores e sem sentido.
Vocês vêem... A distância entre pessoas loucas e pessoas normais é muito pequena.
O que pode diferenciar uma pessoa normal de uma louca é simplesmente o fato de dar ouvido a suas próprias vontades ou não.
Tanto é que muita gente sob certas circunstâncias acaba perdendo o controle e fazendo coisas que não fariam normalmente. Do tipo que pessoas normais não fariam, coisa de gente doida mesmo.
Não vou citar exemplos aqui, todo mundo deve saber alguma engraçada, mas o fato é que vontades todos temos, se temos o autocontrole e se as realizamos ou não é outra história.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Visão Pessimista sobre o Ego
Já perceberam que tudo o que fazemos é exclusivamente voltado para satisfazer nosso próprio ego?Em geral, fazemos as coisas porque gostamos, porque achamos certo ou porque nos trará algum bem.
Mas mesmo nos casos em que somos obrigados a fazer alguma coisa, nos submetemos a fazê-lo apenas porque mentalizamos que há um ganho se fizermos, alguma penalidade se não fizermos ou que é alguma retribuição por ganhos passados. Se vemos que não há nada disso, então por que fazer?
Como já vi alguns dizerem, quando discutimos sobre algum assunto, não estamos interessados sobre a opinião do outro realmente ou em aprender com ele, mas queremos provar que estamos certos para sair por cima, com o ego massageado.
E mesmo que estivéssemos, apenas estariamos por imaginar que esses conhecimentos e/ou informações adquiridas serão úteis, importantes para nós, ou simplesmente porque nos interessa.
Quando fazemos amigos, não queremos amigos que falam o que pensam ao extremo. Ninguém gosta de quem fala a verdade o tempo todo porque isso muitas vezes fere nosso ego, seja por alguma opinião desagradável ou por apontar falhas, erros e defeitos que nos fazem sentir mal. (Mas quem está realmente errado? A pessoa por falar o que pensa ou nós por dar importância pra determinadas coisas?)
Pegando outro exemplo radical, vejamos o caso da solidariedade.
Quem nunca ouviu uma pessoa após ajudar outrem dizer: "A minha maior satisfação é ver a felicidade dessas crianças/dessas pessoas."
Ou então são a favor da preservação da natureza pois estão preocupadas com o futuro do planeta onde seus filhos vão viver.
Empresas, no caso, ganham incentivos fiscais para serem solidárias.
Em outras palavras, pessoas são solidárias simplesmente porque lhes traz satisfação, alívio próprio de consciência ou pra ficar bem na fita.
Poderia-se dizer então que por trás de toda ação e pensamento, há um sentimento egoísta.
Mas voltemos ao título do post, "Visão Pessimista sobre o Ego".
Muita gente vai discordar do que eu escrevi aqui, porém, como disse, isso é apenas uma visão, uma forma particular de ver a realidade que pode estar certa ou não.
Pra quem tem sensibilidade, a vida pode ser muito mais que isso e, pra quem é sábio ou ignorante o suficiente, isso tudo não tem a mínima importância.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Psicopatas
Meu amigo Archimedes emprestou-me uma vez uma revista da superinteressante com uma matéria sobre psicopatas. A matéria segue abaixo:
http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_453009.shtml
Por que isso agora?
Porque é uma reportagem interessante que eu acho que cabe no que vou escrever adiante e porque estou prestes a fazer uma besteira aqui: entrar em contradição. Mas é praticamente impossível uma pessoa não se contradizer quando se trata de determinados assuntos. E como estou no meu blog, reservo-me esse direito.
Estava vendo uma discussão que a Jéssika me passou sobre o caso Eloá e fiz o seguinte comentário:
"Todo mundo precisa de mártires e heróis... Triste, mas verdade.
E é difícil num se sensibilizar vendo esses casos 'Eloá' que passam na TV, principalmente pra quem já passou pela mesma coisa. Quem já passou por algo parecido revive o momento, quem nunca passou imagina como se fosse consigo. É uma fórmula que não tem como dar errado pras emissoras.
Mas não acho errado se sentir triste ou dar importância a essas paradas, é uma coisa natural das pessoas, de empatia. Se não fosse assim, seria todo mundo psicopata. Então não acho que seja falso moralismo.
Só não acho certo radicalizar, viver em função da parada, comer pensando Eloá, dormir pensando Eloá, respirar Eloá, fazer música, comunidade e manifestação, pq seria até injusto pelos outros que morrem e não se fica sabendo."
Realmente, acho que não é errado ficar curioso e se sentir mal pela Eloá. E também não acho errado dar importância a isso, afinal é um sentimento seu e você decide se dá deve dar importância ou não.
Agora sobre a questão de ser falso moralismo ou não... Isso já é mais complicado.
Pessoas disseram que é sim, pois ninguém nem conhecia a moça. Não adiantaria falar que está triste ou dizer que é solidário porque daqui a uns meses vai simplesmente esquecer que isso aconteceu. E que isso é apenas uma jogada da mídia pra que as pessoas ignorantes se comovam e dêem ibope. E realmente têm razão em falarem isso.
Isso é ratificado por um princípio há tempo venho acreditando em e tentando seguir de que, se você dá importância a alguma coisa, deve traduzir essa importância em ações. Porque se você não age, é como se essa "importância" não seja realmente importante. E isso se aplica especialmente a alguma coisa que você ache ruim e que te incomoda. Acredito que sempre devemos tentar mudar as coisas que achamos ruim e não apenas ficar pensar nelas. Senão, é inútil ficar se sentindo mal por uma coisa que só ficaria bem por acaso ou destino. Isso só ficaria te fazendo mal. Ou conforma-se e pára de se importar até não se sentir mais mal (em outras palavras, esquece), ou faz alguma coisa.
Então, se você é humano (no sentido de não ser psicopata) e se sentiu triste por causa dos casos dos Nardoni e da Eloá, e achou um total absurdo (ou seja, se impressionou e não se conformou como eu), botou [LUTO] no nick do Orkut etc, mas não fez nada que realmente mudasse alguma coisa e impedisse mais casos como esse, acho que sim, você é um falso moralista (eis a minha primeira contradição em relação ao comentário anterior). Logo, acho que quem ficou chocado, tem mais é que radicalizar mesmo, fazer música, protesto, abaixo-assinado, se candidatar a presidente, pra ver se muda alguma coisa (eis a segunda contradição). E fazer isso não só por um caso em específico, mas por todos os que acontecem todo dia.
Por último, queria dizer que o mundo tá a merda que tá porque está cheio de pessoas falsas-moralistas, psicopatas e como eu, que se conformam com e não dão importância à maioria das merdas que acontecem. A cultura do individualismo e do menor esforço já está tão arraigada na sociedade que é quase impossível imaginar uma solução pra consertar essa cagada que realmente tenha efeito. Só a educação mesmo e olhe lá, porque teria que ser uma educação diferente dessa que conhecemos e recebemos. Basta olhar o tipo de cidadãos que somos...
http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_453009.shtml
Por que isso agora?
Porque é uma reportagem interessante que eu acho que cabe no que vou escrever adiante e porque estou prestes a fazer uma besteira aqui: entrar em contradição. Mas é praticamente impossível uma pessoa não se contradizer quando se trata de determinados assuntos. E como estou no meu blog, reservo-me esse direito.
Estava vendo uma discussão que a Jéssika me passou sobre o caso Eloá e fiz o seguinte comentário:
"Todo mundo precisa de mártires e heróis... Triste, mas verdade.
E é difícil num se sensibilizar vendo esses casos 'Eloá' que passam na TV, principalmente pra quem já passou pela mesma coisa. Quem já passou por algo parecido revive o momento, quem nunca passou imagina como se fosse consigo. É uma fórmula que não tem como dar errado pras emissoras.
Mas não acho errado se sentir triste ou dar importância a essas paradas, é uma coisa natural das pessoas, de empatia. Se não fosse assim, seria todo mundo psicopata. Então não acho que seja falso moralismo.
Só não acho certo radicalizar, viver em função da parada, comer pensando Eloá, dormir pensando Eloá, respirar Eloá, fazer música, comunidade e manifestação, pq seria até injusto pelos outros que morrem e não se fica sabendo."
Realmente, acho que não é errado ficar curioso e se sentir mal pela Eloá. E também não acho errado dar importância a isso, afinal é um sentimento seu e você decide se dá deve dar importância ou não.
Agora sobre a questão de ser falso moralismo ou não... Isso já é mais complicado.
Pessoas disseram que é sim, pois ninguém nem conhecia a moça. Não adiantaria falar que está triste ou dizer que é solidário porque daqui a uns meses vai simplesmente esquecer que isso aconteceu. E que isso é apenas uma jogada da mídia pra que as pessoas ignorantes se comovam e dêem ibope. E realmente têm razão em falarem isso.
Isso é ratificado por um princípio há tempo venho acreditando em e tentando seguir de que, se você dá importância a alguma coisa, deve traduzir essa importância em ações. Porque se você não age, é como se essa "importância" não seja realmente importante. E isso se aplica especialmente a alguma coisa que você ache ruim e que te incomoda. Acredito que sempre devemos tentar mudar as coisas que achamos ruim e não apenas ficar pensar nelas. Senão, é inútil ficar se sentindo mal por uma coisa que só ficaria bem por acaso ou destino. Isso só ficaria te fazendo mal. Ou conforma-se e pára de se importar até não se sentir mais mal (em outras palavras, esquece), ou faz alguma coisa.
Então, se você é humano (no sentido de não ser psicopata) e se sentiu triste por causa dos casos dos Nardoni e da Eloá, e achou um total absurdo (ou seja, se impressionou e não se conformou como eu), botou [LUTO] no nick do Orkut etc, mas não fez nada que realmente mudasse alguma coisa e impedisse mais casos como esse, acho que sim, você é um falso moralista (eis a minha primeira contradição em relação ao comentário anterior). Logo, acho que quem ficou chocado, tem mais é que radicalizar mesmo, fazer música, protesto, abaixo-assinado, se candidatar a presidente, pra ver se muda alguma coisa (eis a segunda contradição). E fazer isso não só por um caso em específico, mas por todos os que acontecem todo dia.
Por último, queria dizer que o mundo tá a merda que tá porque está cheio de pessoas falsas-moralistas, psicopatas e como eu, que se conformam com e não dão importância à maioria das merdas que acontecem. A cultura do individualismo e do menor esforço já está tão arraigada na sociedade que é quase impossível imaginar uma solução pra consertar essa cagada que realmente tenha efeito. Só a educação mesmo e olhe lá, porque teria que ser uma educação diferente dessa que conhecemos e recebemos. Basta olhar o tipo de cidadãos que somos...
Assinar:
Postagens (Atom)


