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sábado, 15 de agosto de 2020

Desconforto e narrativas

Acredito que, na vida, quem vive bem é quem sabe lidar bem e gerenciar os próprios desconfortos.

Primeiramente, o que quero dizer com desconforto? A ideia aqui é utilizar a palavra desconforto em um sentido mais amplo. Há desconfortos que eu chamaria de físicos, como dor, calor, frio, fome, sono. E desconfortos que eu chamaria de psicológicos/emocionais, como tristeza, raiva, saudade, solidão, ansiedade.

Viver, por si só, equivale a sentir desconfortos. Falando sobre isso com minha psicóloga, ela levantou a idéia de que os desconfortos estão relacionados às nossas necessidades.

Lidar bem com os nossos desconfortos estaria relacionado a como lidamos com as nossas necessidades. O grande problema é que, muitas vezes, temos necessidades conflitantes. Assim como temos necessidade de descansar quando estamos com sono, temos necessidade de preparar comida e nos alimentar quando estamos com fome. Mas e sentimos os dois?

Já em um nível de abstração maior, minha namorada, a Carol, disse que a ferramenta que usamos para lidar com os desconfortos é a narrativa. As narrativas que criamos diante das nossas necessidades e desconfortos permitem que lidemos com elas de maneira positiva ou negativa. E eu concordo.

Por exemplo, se alguém nos promete alguma coisa e não cumpre, podemos adotar a narrativa de que a pessoa falhou e, portanto, a raiva que sentimos em relação a ela é legítima. Ou podemos adotar a narrativa de que ela teve algum problema e não conseguiu ou que já deveríamos esperar isso das pessoas porque elas são falhas. O sentimento de frustração talvez seja o mesmo, mas a forma como lidamos com ele através da narrativa muda.

Isso implica que as narrativas que criamos teriam muito mais importância sobre nossas vidas do que a maioria das pessoas entende ou consegue perceber. Por isso, é interessante que prestemos mais atenção nas narrativas que criamos. Isso permitiria que tomássemos mais controle sobre elas, sobre a forma como nos sentimos, sobre nossas vidas e, por consequência, que vivêssemos melhor.

Memento mori... Só que não

Há algumas semanas atrás, me peguei tendo uma saudade grande da minha mãe que gerou uma reflexão. A morte da minha mãe, pra mim, não fez muito sentido por alguns motivos. Primeiro, porque era uma morte que, ainda hoje, eu acho que poderia ter sido evitada. Segundo, porque eu acho que ela não queria ter morrido. E, terceiro, porque a vida dela fazia sentido pra mim.

A morte dela não fez sentido, mas a vida dela fazia. Isso me gerou alguns questionamentos.

Na filosofia, há uma frase famosa, enunciada como "memento mori", da qual uma tradução possível seria "lembre-se de que você vai morrer". E por que isso é importante?

Para quem é adepto dessa filosofia, lembrar-se da inevitabilidade da morte nos faria dar menos importância a coisas superficiais e passageiras, como o orgulho e a vaidade. Lembrar-se da morte nos faria dar mais valor às coisas verdadeiramente importantes.

Por exemplo:

"Briguei com as pessoas que eu gosto por conta de coisas não muito importantes. Não vou ser orgulhoso, vou pedir desculpas, pois pode ser que eu morra amanhã ou depois e não quero perder tempo de vida brigado por coisas pequenas."

Ou...

"Posso morrer amanhã ou depois, logo, vou fazer o meu melhor para deixar algo pra minha família que lhes possa ajudar ou dar um sustento."

Contudo, discordo desse pensamento. Não acho que a morte é que deve dar sentido à vida. Já há algum tempo, eu acho que a vida deve valer por ela mesma. A morte é, justamente, o que tira o valor da vida.

A morte é o fim último da vida, é o que acaba com a existência em um determinado sentido. Assim como eu acho que o valor da vida está na vida, acredito que o valor das coisas está no caminho e não nos fins. Os fins só servem como objetivos ou passagens intermediárias em um contexto maior de contiuidade.

Você normalmente só se preocupa em ir trabalhar e receber um salário pois acredita que vai continuar vivo mês que vem e que terá que pagar as contas e alimentação. A consciência dessa continuidade é que dá sentido à sua atitude de trabalhar por dinheiro.

Quase todas as metas que se colocam na vida são em favor do caminho em si ou da continuidade. Você normalmente só planeja em se formar na faculdade porque acredita que isso vai ser importante para sua vida depois ou pelo conhecimento adquirido em si. Não pelo próprio objetivo de se formar. E, mesmo que fosse pelo simples objetivo de se formar, a sua vida não acabaria ali. Sua vida não perderia sentido porque outros objetivos viriam e continuariam dando sentido à vida. A continuidade dá o sentido. Se, depois que se formasse, sua vida não tivesse mais sentido, não foi o objetivo de se formar que deu sentido à sua vida. Foi o objetivo de se formar que o tirou. Pois o fim tira o sentido da coisa e sua existência.

Se você tivesse a certeza que iria morrer daqui a um mês, não teria sentido entrar em uma faculdade agora, exceto se for algo que você goste de estudar, se for uma experiência que você queira ter ou tiver algo que queira aprender nesse último mês. Reitero, é o valor das coisas e da vida estão nelas mesmas.

Assim como só vale à pena construir patrimônio e deixar herança pela atividade em si ou para deixar como um legado importante. Só vale à pena escrever um livro pelo prazer ou aprendizado de escrever em si ou pra deixar para a posteridade, para a continuidade.

Diante do fim, diante da presença da morte, para as pessoas que não tem visão de continuidade, as coisas deixam de fazer sentido. Na proximidade da morte, aquilo que não faria sentido na vida "normal" pode passar a ser cogitado. Entram aqueles questionamentos do tipo "se você fosse morrer em um mês, o que faria? Assaltaria um banco? Andaria pelado na rua? Abandonaria o emprego e iria mergulhar com tubarões?". Na presença da morte, tudo é justificável e nada faz sentido.

Claro a sabedoria e o conhecimento que as coisas se acabam é importante. Mas não é isso que dá valor às coisas. Quando alguma coisa se vai, é a memória e o que fica dela que é importante.

Com base nessas reflexões, como devemos encarar a vida?

A vida deve ser encarada como se não fosse ter fim, com a consciência de que suas ações tem consequências. Se você morre, fica o que você deixou. As coisas continuam. Inclusive se você briga com quem você tem apreço. Isso tem consequências e continuidade, e isso importa. E, por isso, valeria à pena abrir mão da vaidade e do orgulho e não porque você vai morrer em algum momento. Porque, se pensamos que tudo, inclusive o universo, vai ter fim um dia, então qual seria o sentido das coisas? Logo, por mais que, racionalmente, saibamos que o fim existe, que vivamos como se não soubessemos, mas, repito, com a consciência de que as coisas tem consequências e de que as consequências importam.

PS:  Escrevi este texto como forma de provocação. Se as coisas fossem realmente infinitas e não acabassem, elas também não fariam sentido. A solução? Abraçar o niilismo.

Sobre empresas e barcos

Eu gosto da metáfora de que empresas são como barcos numa competição. O objetivo da competição não é exatamente chegar a um lugar específico, mas ser o barco que está à frente na corrida, o barco mais rápido.

E no que isso implica?

Quando você é contratado pela empresa, você entra no barco e passa remar junto com os outros pra tentar fazer o barco navegar mais rápido. No barco, você ganha sua alimentação e seu sustento, mas tem que dedicar boa parte do seu dia e da sua vida remando.

Se o barco começa a ficar pra trás na competição e perde velocidade, a probabilidade de que ele afunde é maior.

Ninguém no barco quer que ele afunde, porque isso significaria ficar sem sustento. Em especial, os chefes e capitães do barco, porque se tiverem que ingressar em outro barco, é possível que tenham que voltar a remar e não apenas dar as ordens para os outros remarem. Além disso, os chefes e capitães são os que ganham a maior parte das bonificações dos integrantes do barco.

Para o que remam, em geral, é melhor ser integrante do barco e ter que remar (pois isso significa que haverá comida e sustento) do que não participar da corrida e ficar sem nada. Por isso, em muitos casos, eles estariam dispostos a aceitar condições em que teriam que remar muitas horas e ganhando pouca comida, face à alternativa de não ter nada. Além disso, quando o barco vai bem, muitos dos que remam sentem orgulho do barco, pois vêem o desempenho do mesmo como reflexo das suas remadas.

Por isso, as pessoas vão querer defender o próprio barco com afinco e seriam capazes de abrir mão de muita coisa pelo barco (mesmo que as condições de quem rema no barco não sejam as melhores). Se o barco afunda, não é o barco que perde. É todo mundo que tá nele. As pessoas se tornam dependentes do barco.

E quais as regras da competição?

Bom, isso varia de lugar pra lugar. Geralmente, as regras para os barcos consideram que deve haver um limite máximo de tempo por dia que os integrantes do barco podem ficar remando e deve haver um limite mínimo de comida e sustento que o integrante de barco deve ganhar.

Se não há essas regras?

Aí depende... Se tiver muito barco e as pessoas puderem escolher com facilidade em quais barcos elas querem entrar, não é tão problemático para as pessoas. No entanto, geralmente, as vagas nos barcos são limitadas e bem disputadas. E se você já não estiver em um barco e não tiver qualificação de chefe ou capitão, as chances de você ficar de fora da corrida são grandes.

Se a dificuldade de conseguir vaga em um barco é grande, você está mais sujeito a aceitar condições piores de remada e vai ter mais medo que o barco afunde.

Se as regras não existem, é bem possível que, na condição em que há poucos barcos, as horas de remadas sejam altas e a alimentação seja parca. Afinal de contas, é uma competição. O barco cujos integrantes remam mais tempo e que dá menos sustento per capita a eles (logo, é capaz ter ter mais gente remando por quantidade de comida) consegue ir mais rápido. Os que ficam pra trás correm risco de afundar. Logo, nesse contexto, haveria um incentivo para manter os integrantes remando mais tempo com menos comida.

E se os integrantes estiverem insatisfeitos com as condições no barco?

Eles podem tentar achar outro barco, se puderem, em busca de condições melhores. Os problemas são que nem sempre é fácil conseguir vagas em barcos e que os diferentes barcos acabam oferecendo condições similares a seus remadores (pois eles estão em uma competição).

Uma nota pra quem é a favor da liberdade: "liberdade de escolha" entre passar fome e ser semi-escravo não é liberdade, visto que muita gente acaba se vendo sem alternativas de buscar condições melhores.

Por isso, é importante sim que a associação de barcos ou o organizador da competição institua as regras. Caso contrário, quase tudo é válido.

Vontando ao mundo real...

Pode-se questionar que a tecnologia tem dado mais produtividade às empresas e que a maior parte do trabalho tem sido automatizada, portanto, não haveria tanto incentivo para a exploração do trabalho das pessoas. No entanto, na metáfora dos bacros, os recursos gastos com a alimentação das pessoas poderia servir também para representar os recursos gastos com a tecnologia. Mais dinheiro que se usa para pagar funcionários das empresas significa menos dinheiro pra investir em tecnologia e produtividade, logo, o incentivo de manter baixo o sustento dado aos remadores permanece.

Sobre a competição...

Por que ela existe? E se não existisse? Deveria haver regras diferentes? Tudo isso há de se questionar, mas não sou eu que vai responder. Estou apenas descrevendo uma competição de barcos.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Sobre a beleza

"É melhor ser belo do que ser feio."

Ultimamente tenho pensado sobre a beleza. Independente do que consideramos belo ou feio como cultura e sociedade, se você pudesse escolher entre ser considerado belo ou feio, o que você escolheria?

Naturalmente, é melhor ser bonito do que feio. Mas por quê? O que significa ser belo e o que isso implica? Qual seria a relação disso com a objetificação de pessoas?

Bom, primeiramente, as regras pelas quais definimos o que é bonito e o que é feio é uma disputa política. Não no sentido mais comum, de congressos e parlamentos, mas num sentido mais amplo. Há várias pessoas que literalmente  se esforçam para serem consideradas bonitas (como atrizes, atores e modelos). E há pessoas que validam sua beleza (geralmente pessoas em relação de poder, como o responsáveis pelo casting de filmes e comerciais, e diretores). Essas pessoas, em conjunto, definem os padrões estéticos da sociedade.

Uma vez definidos esses padrões estéticos, outros buscarão se encaixar nesse mesmo padrão. Se na China, em algum período, foi definido que mulheres com pés pequenos eram atraentes, fez com que as mulheres (possivelmente coercitivamente) buscassem, até mesmo por técnicas torturantes, ter pés pequenos. Ou como as mulheres que utilizavam anéis ao redor do pescoço para ficar mais comprido.

Hoje em dia, há mulheres que se deixam objetificar em quase qualquer lugar da internet e do mundo. Mas o que justifica que essas mulheres, por vontade própria, postem fotos seminuas (ou nuas) que permitem a objetificação o próprio corpo?

Acho que, para procurar uma resposta, é interessante olhar para a dialética mestre-escravo de Hegel, presente na Fenomenologia do espírito, e fazer uma analogia. "A passagem descreve o desenvolvimento da autoconsciência como se fosse o resultado de um encontro entre dois seres distintos e também autoconscientes".

Uma pequena digressão:
O que não sou eu é o outro. O outro, que é diferente, que faz com que eu crie uma autoconsciência (Se o outro fosse igual a mim, só existiria o "eu"). Daí surge um embate, porque eu quero mais de mim mesmo no mundo, eu quero mais de mim mesmo inclusive no outro. Eu não gosto do que é diferente, porque o outro me diminui. A presença do outro faz com que haja menos de mim mesmo no mundo. Eu quero que o outro seja como eu. Mas, no momento em que o outro se submete e se torna como eu, a minha autoconsciência fracassa. E o outro, que se submete e se deixa dominar, também passa a ter poder sobre mim. O mestre, que não trabalha (e, muitas vezes, nem sabe realizar o trabalho), depende do escravo para lhe dar o sustento. A minha existência passa, então, a depender da existência do outro.

Logo, se eu projeto meus gostos e preferências estéticas sobre o outro (projetando o meu "eu" sobre ele) e ele corresponde a essa espectativa, ele não está apenas se submetendo, mas também obtendo poder sobre mim.

As mulheres que buscam a beleza por meio de posições objetificantes buscam, também, o poder sobre o olhar do outro que, muitas vezes, acaba se revertendo para outros tipos de poderes (simbólico, econômico, financeiro).

Outras questões surgem: se os padrões estéticos não fossem os atuais, quais seriam? E, caso fossem realmente diferentes, o que mudaria?

Bom, os padrões estéticos são definidos em uma disputa política de poder. Logo, posições de poder geralmente possuem prerrogativa e possibilidade de definir o que é belo culturamente e em uma sociedade. Se as posições de poder se alternassem e, por exemplo, mais mulheres as ocupassem, a opressão e objetificação do corpo feminino acabaria? Muito possivelmente diminuísse, mas não acabaria. Porque a beleza não só é definida pelos que tem poder. A própria beleza é poder. Logo, qualquer que fosse o padrão estético, as pessoas continuariam buscando-o, mesmo que fossem objetificadas no processo.

Não há como abolir padrões estéticos visto que o ser humano, por natureza, categoriza e separa as coisas (entre belo e feio, forte fraco, bom e mau, etc). E, como beleza é um valor puramente visual, muitas vezes desconectado de qualquer outro valor, a busca pela beleza continuaria objetificante. Mas, ainda assim, seria melhor ser belo do que ser feio.

Os "feios" sempre continuarão relegados à rejeição social. Contudo, claro, podemos, como sociedade, dar mais importância a outros valores que não simplesmente o capital estético das pessoas. Só me parece improvável porque assim como julgamos a estética das coisas (ambientes, decorações, roupas e até video-games. Hoje em dia tudo tem design envolvido), julgamos a estética das pessoas. Nós não conseguiríamos ter um olhar que julga a beleza dos objetos e do mundo que nos cercam, mas que é cego para a beleza das pessoas e não as julga (e nem as objetifica).

quinta-feira, 24 de maio de 2018

31 anos

"Tenho medo do futuro
Tenho medo dos meus pais não viverem o bastante para verem meus filhos
Tenho medo que meus show será um fracasso
Tenho medo que minha namorada não fique grávida no exato momento que queremos
Tenho medo que eu nunca vou atingir meu potencial verdadeiro
Tenho medo que ela ainda ame aquele cara"

Não fui eu quem escreveu o bilhete e a letra não é minha, é de uma pessoa famosa. Não representa exatamente o que eu penso ou sinto no momento mas, quando foi postado no Instagram, muitos disseram que estava depressivo ou que era suicida.

Semana passada fiz 31 anos. Procurei comemorar cada dia pelo menos um pouco, do meu jeito, por uma semana. Minha vida não é perfeita, nem do jeito que eu gostaria exatamente. E também tenho medo de coisas no futuro. Ainda assim, tá tudo bem, porque a vida é assim.

Quando a gente posta qualquer tipo de coisa, coisas boas ou ruins, pessoas julgam, sentem vergonha alheia, inveja, o que seja. Sempre há quem julgue. Pra quem é famoso, como o autor do bilhete, deve ser ainda pior. Porque pessoas famosas, teoricamente, tem vidas boas e maravilhosas. Porém, mesmo elas tem problemas e inseguranças. Todo mundo tem.

Não tô aqui pra dar lição de moral ou dizer que as pessoas são hipócritas. E não quero criticar o ambiente das redes sociais, porque isso já é clichê. Só queria dizer que, assim como há pessoas que julgam, se você tá mal ou com algum problema, sempre tem pessoas para escutar e ajudar. E, de vez em quando, a gente precisa sim ouvir coisas boas, um apoio moral ou ser ajudado. Então, sei lá, só queria deixar uma mensagem positiva aqui. Aproveite a vida, busque coisas boas, seja feliz.

Por fim, fiquei sabendo por acaso de um PM chamado Rayrisson, foi atacado e ficou cadeirante, e resolvi ajudar. Não conheço ele pessoalmente, mas o link da vakinha dele é:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/adaptando-se-a-uma-nova-vida
Se não puder ou não quiser ajudar ele, tem outras pessoas que precisam da sua ajuda também e acho que não custa muito fazer algo assim pelo menos de vez em quando.

domingo, 11 de março de 2018

Meditação e aceitação

Há algum tempo eu era obcecado com a ideia de aceitação. E, de certa forma, é o que todo mundo diz.
"Aceite mais o seu corpo."
"Não dá pra mudar o passado, resta aceitar."
"O que não se controla, aceita-se."
"As pessoas são imperfeitas, tem defeitos. As pessoas erram. Cabe a nós aceitá-las como são."

Acho que eu realmente acreditava nesse tipo de coisa. Mas, sabe, aceitação é como aquele remédio ruim que você toma. Você toma porque acredita que ele vai te fazer melhor, mas a experiência não é agradável e deixa um gosto amargo na boca.

Ultimamente tenho criado o hábito de meditar. Tenho meditado todos os dias ou quase. E tem sido muito interessante. Meditar não significa não pensar em nada. Meditar não significa controlar seus pensamentos. Pensamentos vêm e vão e, na maioria das vezes, sem o nosso controle. Meditar te ensina a deixar os pensamentos fluírem de uma forma mais livre. Te ensina a não necessariamente ter uma resposta emocional quando os pensamentos vem, nem positiva e nem negativa. Te ensina a dissociar pensamento de sentimento e criar mais equilíbrio. Te ensina a julgar menos aquilo que vem à cabeça.

Voltando à questão da aceitação. O fato de aceitar nos coloca em uma posição julgadora.
"Eu julguei a situação passada como ruim. Estou tentando aceitá-la."
Aceitar o que é bom é fácil, é automático. Quando se fala em aceitar, refere-se às coisas ruins. E, por mais que se aceite, o gosto amargo no fundo da boca permanece. E, nisso, a meditação pode ajudar. A meditação ajuda a te tirar dessa posição julgadora, de ficar avaliando coisas como boas ou ruins. E isso te liberta.

Por fim, quando julgamos algo, nos colocamos na posição de juiz. Julgando alguma coisa como ruim e dizendo "eu aceito isso", nos colocamos acima do mundo. Nos colocamos como centro do universo. Colocamos nosso valores como superiores. Alimentamos nosso ego. Alimentamos nosso viés e nossos preconceitos.

sábado, 10 de março de 2018

O problema da paixão

Paixão... Paixão é aquilo que foge do racional. Paixão é aquilo que acontece quando nossos olhos brilham por alguém. É quando vemos o extraordinário no ordinário. É quando o coração bate mais rápido e mais forte. É quando enxergamos beleza naquilo que é comum.

Mas tem uma coisa engraçada sobre a paixão. Muita gente já deve ter passado por uma situação dessas... Sabe quando você conhece alguém e você pensa: "Nossa, essa pessoa super combina comigo, a gente daria super certo juntos. Ela é uma companhia agradável e gosto dela, mas acontece que não me apaixonei por ela"? Ou, às vezes, você conhece uma pessoa que não tem nada a ver contigo e, mesmo assim, você se apaixona por essa pessoa, sabendo que dará errado.

A paixão parece algo quase mágico. Coisa que viola o nosso livre-arbítrio de escolher por quem a gente deveria ou quer se apaixonar e com quem se relacionar. É uma coisa meio impositiva que recai sobre a gente. A razão manda uma coisa, a paixão quer outra.

Mas, afinal de contas, o que faz despertar nossa paixão? Até que ponto temos o poder e o direito de escolher por quem nos apaixonamos?

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A coisa mais importante do mundo

Confesso que, quando iniciei a escrita deste texto, não sabia muito bem aonde queria chegar. Ainda não sei para falar a verdade.

Felicidade? Amor? Tempo? Família? Amigos? Qual é a coisa mais importante do mundo?

Amor... Amor redime, amor salva, amor cura. Amor dá sentido à vida. Há quem acredite que sem amor a vida não é completa.

Felicidade... Felicidade é um conceito mais vago e subjetivo. Pode incluir a construção de uma família ou alcançar alguma meta profissional. Geralmente é associado ao conjunto da obra de uma vida, de tijolos colocados um a um, que levam a um estado de espírito superior. É o que imaginamos que resta depois que alcançamos um sonho. Muitas vezes é a finalidade de uma vida.

Sonhos... Sonhos são a síntese do que queremos. É o ideal platônico encarnado em nós. Todos desejamos alguma coisa. Todos somos seres desejantes. Quem não tem um sonho, não tem nada.

"Sonhos. Cada homem necessita perseguir seu sonho. Cada homem é torturado por seu sonho, mas é o sonho dá significado à sua vida. Mesmo que o sonho arruíne sua vida, o homem não pode permitir-se a deixá-lo para trás. Neste mundo, seria o homem capaz de possuir algo mais sólido que um sonho?"

Há quem diga que nada disso basta e que nada disso faz sentido se não vivemos uma vida moral. Se mentimos, enganamos ou roubamos para conseguir o amor de uma pessoa, alcançar a felicidade ou um sonho, ainda são válidas as coisas que conquistamos? Faria sentido ter amor e felicidade se somos canalhas, traiçoeiros e ardilosos? Ou valeria mais à pena ser infeliz e sozinho e ser uma pessoa correta? Os fins justificam os meios? A moral e o caráter valem mais que amor, felicidade e sonho?

Queria terminar este texto com um trecho do discurso de formatura de David Foster Wallace no Kenyon College, "Isso é água". Ainda quero retomar uma discussão sobre essa palestra futuramente em outro post, mas, desde já, recomendo.

"Porque existe uma coisa que é estranha, mas é verdade: nas trincheiras do dia-a-dia da vida adulta, não há uma coisa chamada 'ateísmo'. Não existe algo como 'não venerar'. Todo mundo venera. A única escolha que fazemos é o que venerar... Se você venera dinheiro e coisas - se isso é onde você encontra significado na vida - então você nunca terá o bastante. Nunca sentirá que tem o bastante. É a verdade. Venere seu próprio corpo e beleza e atração sexual e você sempre se sentirá feio, e quando o tempo e a idade começarem a aparecer, você morrerá um milhão de mortes antes de finalmente morrer... Venere o poder - você se sentirá fraco e com medo, e você vai precisar de cada vez mais poder sobre os outros para manter o medo controlado. Venere seu intelecto, ser visto como inteligente - você vai acabar se sentindo estúpido, uma fraude, sempre no limite de ser descoberto."
- David Foster Wallace

Qual é a coisa mais importante na sua vida? O que você venera?

Há sempre aquela coisa que é, ao mesmo tempo, causa potencial de nossas alegrias e tristezas. Tudo depende do que você quer e do que você valoriza.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Tristeza e raiva

- O quê...
- Apenas escute. É uma história de um homem velho prestes a morrer. O ódio é o lugar para onde vai um homem que não consegue suportar a tristeza. A vingança é mais escura que mancha de sangue. A tristeza é uma adaga afiada para acertar seu coração. Com o passar dos dias, apenas fica mais afiada. A única coisa que resta é o seu poder.
- Ei, ei... Isso não parece com você. Você vai me dar sermão?
- Sua maneira de viver também não é ruim. Mas eu vejo um corte no seu coração. O medo deixou uma rachadura nele.

Berserk é uma das minhas histórias favoritas. Em geral, acho que a força da narrativa mostra-se mais pelos acontecimentos e atitudes dos personagens do que pelos diálogos em si. No entanto, essa cena em particular, entre Guts e Godot, me chamou a atenção.

"O ódio é o lugar para onde vai um homem que não consegue suportar a tristeza."

Tristeza e raiva são faces da mesma moeda. Em qualquer situação em que você sente raiva, seria possível sentir tristeza no lugar. A raiva surge do inconformismo, surge quando acreditamos que o motivo de nossa tristeza ou frustração poderia não existir. A tristeza é a raiva conformada. E é o que sobra quando deixamos a raiva de lado. E, quando deixamos a tristeza de lado, o que sobra é a resignação.

O homem que não sente raiva não é o homem impassível, sem sentimentos. O homem que não sente raiva é o que sabe lidar bem com as situações de tristeza. É o homem que sabe que não possível mudar o passado. É o homem sábio.

domingo, 29 de outubro de 2017

Mudanças de narrativa, ressignificação e autoimagem

"Nada acontece no tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu poder mágico. Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, um modo de mútua influência entre os homens."

Nossa memória é seletiva. Dependendo de quem você é e das coisas que acontecem, você acaba lembrando muito mais dos aspectos positivos ou negativos. A forma como contamos as histórias para nós mesmos e para os outros muda completamente a maneira como vemos os fatos e como nos sentimos. Toda mudança de sentimento em relação a coisas e pessoas é acompanhada por uma mudança de narrativa.

"Eu gostava de fulano, mas depois descobri uma coisa que me fez mudar de ideia."
"Eu não gostava de ciclano, mas percebi que ele era diferente do que eu pensava."

Além disso, histórias que contamos sobre nós mesmos quase sempre tendem a proteger nossa autoimagem. Quase ninguém fala algo do tipo "fiz merda porque sou uma pessoa de merda" ou "agi de maneira errada porque realmente não valho nada." O indivíduo que fala esse tipo de coisa é avaliado como alguém que possui uma autoestima reduzida ou que possui problemas de caráter moral. Quase sempre colocamos a culpa sobre nossas decisões ou atitudes ruins em fatores e circunstâncias externas ou que não eram possíveis controlar. No existencialismo, isso é chamado de má fé.

"Agi errado porque estava com raiva."
"Fiz errado porque não me ensinaram."
"Agredi porque me provocaram."

Existe pesquisa que diz que a maioria das pessoas, se perguntada "você se considera uma pessoa mais inteligente que a média?", responde que sim (é chamado de efeito Dunning-Kruger e se aplica a outras áreas também). Essa proteção da autoimagem não é algo errado, é questão de saúde mental. Se uma boa parte das pessoas achasse que possui um valor reduzido, seria um grande problema para elas mesmas. Precisamos recontar nossa própria história quando nos sentimos ameaçados, quando isso nos deixa mal ou para manter uma coerência interna. Precisamos proteger nossa identidade.

Nossa identidade, o que somos e o que pensamos são algumas das coisas mais valiosas que temos. Por isso você vê tanta gente capaz de brigar, discutir e até matar por coisas com as quais se identificam ou contra coisas que ferem sua identidade. É o caso de certas manifestações políticas ou do machão que se descobre corno. E, por isso, algumas pessoas consideram ataques às suas ideias como ataques pessoais.

Prosseguindo, acredito que nossa memória emocional geralmente é mais forte do que a memória dos fatos propriamente dita. Em muitas ocasiões, não lembramos exatamente como aconteceram as coisas, mas podemos nos lembrar de como nos sentimos na hora. Por isso mudar nossa narrativa acaba sendo uma tarefa fácil na maioria dos casos. Não precisamos mudar o que aconteceu, apenas como nos sentimos em relação ao que aconteceu. E, para mudar como nos sentimos, acabamos mudando a narrativa. Acabamos mudando a forma como contamos a história.

Por exemplo, o significado de uma pessoa na sua vida começa a mudar no instante em que a mesma decide terminar um relacionamento amoroso com você. Com isso, muda sua visão sobre ela, mudam as histórias que você conta sobre ela e muda o sentimento que você tem por essas histórias e por essa pessoa. A imagem da pessoa é ressignificada. Você deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é amor. Deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é carinho. Acho isso triste, mas é necessário para que a vida possa seguir.

As narrativas possuem um poder muito forte sobre nossas vidas. A maioria das pessoas não percebe isso. A maioria das pessoas muda as narrativas sem ter consciência. Mudar a narrativa é ressignificar. Ganhar poder sobre suas próprias narrativas significa ter controle sobre sua própria vida. Isso levanta uma série de dúvidas e questionamentos sobre o que é a verdade. Mas deixo essa discussão para um outro momento.

"A memória é uma ilha de edição."


Contém spoilers:

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Somos felizes?

"Esse é o problema com a vida, não é? Ou você sabe o que quer e não consegue o que quer, ou você consegue o que quer e então não sabe o que quer."

Somos felizes e não sabemos? Ou somos infelizes e também não sabemos?

Do ponto de vista filosófico, há uma série de perguntas que podemos nos fazer e que servem de indagações para avaliarmos se estamos vivendo uma vida satisfatória. Listo aqui algumas delas:
  • Sua vida é prazerosa? Ou é sofrida?
  • Você age de maneira moral? Você segue princípios?
  • Você se sente uma pessoa livre? Você acha que tem liberdade para escolher o próprio caminho e as coisas que quer?
  • O que você tem hoje em dia e o que você alcançou até o momento são coisas que você já quis algum dia? Já foram seu sonho ou objeto de seu desejo no passado?
  • Você imagina que as coisas que você deseja no momento tem realmente grande impacto sobre sua felicidade? Ou você as está subestimando ou superestimando? O que você quer está muito longe do que você precisa?
  • O lugar em que você se encontra agora (em termos de moradia/trabalho/estudo etc) te alegra ou te entristece? Você acha que está no lugar certo? Você acha que está fazendo aquilo que deveria? Você está fazendo aquilo que gostaria?
  • As pessoas com quem você convive te alegram ou te entristecem? Existe alguém com quem você quer conviver mais? Existe alguém de quem você sente falta? Você sente necessidade de conhecer pessoas novas?
  • Você se dá bem com sua família (pai, mãe, filhos, irmãos, etc)?
  • Você tem algum relacionamento amoroso? Tem alguém que você ame e cujo amor seja recíproco?
  • Se você fosse morrer amanhã ou na semana que vem, o que você faria? O que teria valor para você? Existiria algo de que se arrependeria? Existiria algo que você acha que deixou de fazer?
  • Se você fosse viver a vida que está vivendo agora por repetidas vezes, por mil, dez mil ou infinitas vezes, você iria querer viver esta vida deste jeito, exatamente da forma como tudo ocorreu?
  • Você teria vontade de fazer o que faz ou o que já fez inúmeras vezes? Se fosse continuar fazendo o que você faz hoje em dia para sempre, todos os dias, você continuaria fazendo e se alegraria com isso?
Claro, felicidade é mais que responder simples perguntas. E, para alguns, felicidade nem é a coisa mais importante da vida. Porém, não custa nada se questionar...

sábado, 21 de outubro de 2017

Nietzsche, fuga da realidade e a modernidade

"Se não existe nada além desta existência, há de se concluir que apenas ela merece nosso amor. Aprender a amar nosso destino, encontrar beleza no necessário, esta é a grande lição de Nietzsche já no fim de sua produção intelectual. Este talvez este seja seu último grande ensinamento, aquele que o filósofo levou mais anos para interiorizar: dizer sim à vida, porque só ela existe e somente ela carrega valor em si mesma. Afirmar a realidade e viver em sintonia consigo mesmo. Contribuir assim para que tudo se torne mais belo, mais forte, mais potente." (https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/)
Nietzsche é um filósofo contra qualquer tipo de idealismo, como religiões, comunismo, utopias ou qualquer coisa que te tire da realidade, da vida e do mundo como ele é. É um filósofo com o qual me identifico bastante e de cujas ideias eu gosto. Posteriormente a seu trabalho, outros categorizaram o niilismo em sua obra e cunharam o termo niilismo negativo:
"Aqui, nega-se o mundo em nome de outros valores. Mas o niilista engana a si próprio, ele nunca diz negar o mundo, pelo contrário, ele se diz afirmando Deus, uma utopia, o que quer que seja. Divisão de dois mundos, um debaixo: sensível, mutável, corporal, imperfeito, temporal; outro supra-sensível: imutável, ordenado, perfeito, atemporal. O niilista negativo cria outros mundos para poder suportar este. Se esta ordem terrena o faz sofrer, ele diz: “Deus é misterioso, escreve por linhas tortas“. Se o homem sofre aqui na terra ele diz: “Deus, tenha piedade de nós“. A vontade se torna doente, remete a mundos fora deste. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” [1Jó 2:15]. Este mundo é ruim, portanto, o niilista deve provavelmente ser o escolhido de Deus (um deus dos fracos, oprimidos, que sofrem), esta é a figura do ressentimento" (https://razaoinadequada.com/filosofos-essenciais/nietzsche/4-formas-de-niilismo/)
Segundo Nietzsche, os homens inventaram o ideal para negar o real. Logo, devemos viver uma vida sem ilusões, sem nada que possa ser usado para justificar nossas fraquezas e misérias, ou que nos façam fugir da realidade. Isso não é tão simples quanto parece, principalmente nos dias atuais. Além dos grandes idealismos e idealidades denunciados por Nietzsche, há ilusões menores e cotidianas que sempre nos cercam e, inconscientemente, estamos sempre tentando fugir do mundo à nossa frente.

Desde pequenos, somos bombardeados com informações e modelos de como a vida deve ser. Romantizamos relacionamentos, trabalho, carreira, filhos. Criamos expectativas sobre como devemos ser tratados e sobre o que merecemos por agir de maneira correta e justa (de acordo com nossa própria visão do que esses conceitos significam).

Hoje em dia, ainda temos celulares, tablets, filmes, séries, jogos, internet. Não conseguimos mais ficar na fila do banco, médico ou dentista sem um celular na mão. Não conseguimos mais viver a vida real. Não conseguimos encarar o vazio existencial, a monotonia e a angústia de viver, sendo estes facetas da vida que a tornam real e, por vezes, bela.

Necessitamos escapar da realidade. Precisamos viajar. Precisamos de algo que ocupe nossas mentes. Precisamos fugir para os mundos da ficção, dos filmes, séries e jogos, onde nossos estereótipos e expectativas são reforçados e projetamos o que esperamos que acontecesse no mundo. E vivemos correndo atrás desses ideais, tentando reproduzi-los em nossas próprias vidas. Sem esquecer de drogas e vícios, que são outro tipo de muleta para a existência, outro tipo de fuga.

Nietzsche fala então de amor fati:
"O bom e o ruim, a dor e o prazer, são inerentes à vida, amar o que nos acontece e nos acontecerá é o primeiro passo para nos tornarmos o que somos. Não precisamos mais esperar um poder exterior para justificar esta realidade, não há uma moral superior, não há um destino que justifique o mundo. O homem precisa dar conta de si, ele mesmo precisa criar sentido e justificar a realidade, transvalorando valores. Dar sentido, dar valor, é amar." (https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/)
Encerro este texto com uma frase comumente atribuída à Buda (cuja verdeira fonte não consegui confirmar):
 "Não se esqueça que os instantes que você vive aqui e agora e as pessoas com quem você convive aqui e agora são as mais importantes da tua vida por serem as únicas reais." - Budismo

domingo, 15 de outubro de 2017

Coragem e Indiferença

Algumas vezes queremos fazer algo, mas temos medo. Nessas horas, buscamos a coragem. Tentamos sobrepujar o medo com pura força de vontade.
Às vezes dá certo. Às vezes nos jogamos no abismo sem saber o que esperar.
Às vezes o medo nos paralisa. Às vezes acabamos fugindo.
Porém, uma coisa é certa: não há coragem sem medo. Só ao sentir o medo, podemos criar a coragem. São duas faces da mesma moeda, surgem da mesma circunstância.

Porém, existe uma outra alternativa: a indiferença. A indiferença é a verdadeira antítese ao par coragem/medo.
Quem sente coragem consegue até seguir em frente, mas, no fundo, continua sentindo medo.
Quem é indiferente não teme e também não precisa de coragem. É livre para fazer o que quer.

Ao invés de buscar a coragem, busque a indiferença na sua vida. Tente ver as coisas sob a óptica de alguém de fora, que não se importa com as consequências. Isso torna certas decisões muito mais fáceis.

sábado, 7 de outubro de 2017

Paradoxo da liberdade

Felicidade pressupõe liberdade. Em geral, quem é mais livre é mais feliz. No entanto, a angústia nasce justamente dessa mesma liberdade de escolha.

Barry Schwartz é um psicólogo que escreveu um livro chamado "O Paradoxo da Escolha". Nele, ele fala como, na sociedade atual, com toda nossa liberdade de escolhas e de deliberação, muitas vezes as pessoas acabam mais tristes, infelizes ou oprimidas.

Oprimidas pela escolha, pois quando você é obrigado a escolher, escolhas insignificantes acabam se tornando trabalhosas, tomando tempo desnecessário, e escolhas importantes acabam se tornando "impossíveis" de se fazer, por medo de escolher a opção errada e ter que colher as consequências disso. Ademais, a infinidade de coisas e de opções para que possamos escolher às vezes nos paralisa, causando inação. Nos sentimos perdidos, desamparados. Vemos despropósito na existência de algumas escolhas. Por que temos que escolher o que escolhemos?

O historiador Leandro Karnal faz uma reflexão sobre o trabalho de Étienne de la Boétie, o “discurso da servidão voluntária”. Ele diz que muitas vezes, abrimos mãos da nossa liberdade de escolha e entregamos a outrem por ser mais confortável ou por não nos sentirmos capazes de deliberar. Abrir mão da liberdade de escolha às vezes é libertador, principalmente na sociedade de hoje, em que há tanta coisa a escolher. Existencialistas talvez condenariam isso. Diriam que é má fé abrir mão da nossa agência sobre o mundo. Mas eu acho que abrir mão de escolher também pode ser uma escolha e não é uma escolha imoral.

Queria também falar sobre o exemplo que o Barry dá sobre as calças jeans. Na palestra ele diz que antigamente só havia um tipo de calças jeans para comprar nas lojas. Era uma calça horrorosa, não vestia bem, não era confortável, mas, com o tempo, ela ía se adaptando ao corpo. Você só comprava outra quando elas ficavam velhas mesmo. Outro dia ele foi comprar calças jeans novas para ele. Chegou na loja e viu que, atualmente, há um infinidade de tipos de calças. Apesar de ter comprado uma calça muito melhor do que ele jamais teve na vida, ele saiu da loja se sentindo infeliz, miserável. Simplesmente porque achou que, dada a quantidade de opções, poderia ter escolhido melhor. A multitude de opções faz com que elevemos nossas expectativas em relação ao resultado das nossas escolhas. E quando a expectativa é muito alta, mesmo que o resultado seja bom, ainda assim nos sentimos insatisfeitos.

Podemos aplicar isso às relações amorosas que temos hoje em dia. Se tornaram descartáveis, pois, pelo nosso leque e liberdade de escolhas, acabamos achando que não estamos com o par ideal. Sempre achamos que podemos escolher melhor e acabamos sozinhos e infelizes. Infelizmente, o amor virou "produto" de nossas escolhas em um sentido mais literal.

A solução? Talvez recorrer mais ao epicurismo. Viver uma vida buscando as coisas e prazeres mais simples, diminuindo nossas expectativas sobre a forma que o mundo deve ser e sobre o que o mundo nos deve. Talvez também devemos ser mais resignados e nos contentar com soluções que nem sempre vão ser as melhores em todas as situações, tentando, por outro lado, não cair na mediocridade. Equilíbrio é a chave.


Sobre mudanças

Tudo no mundo é exatamente do jeito que você acha que é. Exceto quando não é.

Você é do tipo de pessoa que costuma se questionar sobre suas próprias convicções? Faça um exercício... Tente encontrar uma crença sua que você acha que talvez não esteja certo sobre. Que não simplesmente esteja em dúvida, mas esteja errado. É possível? Que crença é essa?

Na minha vida, eu sempre segui um script. O caminho mais seguro. Até que esse caminho me levou a uma situação de infelicidade. Hoje em dia, eu percebo uma coisa. Mudanças não são opcionais. Tudo que muda, muda obrigatoriamente porque é necessário mudar. As pessoas que tomam riscos, que abrem mão de segurança para buscar algo a mais... Se você perguntar para elas, elas vão dizer que foi por opção delas e que elas conquistaram o que conquistaram por vontade própria. Mas, na verdade, o fazem porque não conseguem ser de outro jeito. É da natureza delas. É a natureza das coisas.

Steve Jobs foi quem foi porque era pra ser assim. Se tivessem pedido para ele: "Steve, não seja quem você é. Seja outra pessoa.", acredito que não funcionaria. Exceto se ele fosse obrigado por alguma circunstância. Steve Jobs só poderia ter sido Steve Jobs. Apenas se a história fosse diferente, Steve seria diferente. Seria como poderia ser, dado um outro contexto.

Todo mundo que muda alguma coisa, muda porque sente vontade ou necessidade, e vontade e necessidade não podem ser controladas, simplesmente surgem sem que tenhamos controle. Percebo também que as maiores mudanças, as mudanças mais profundas, geralmente advém das situações mais agudas, das condições mais extremas. Para alguém que está no poço do desespero só há duas saídas, o fim ou a renovação, a luta. Pessoas e animais que estão acuados, pressionados, intimidados, tendem a tomar atitudes mais radicais. As situações causam as mudanças.

Claro, nem sempre mudanças são tão bruscas assim. Porém, olhando para trás, vejo que as principais mudanças que ocorreram na minha vida foram devido a momentos em que houve uma ruptura no contexto geral. Mais ainda, essas rupturas às vezes surgem de eventos aparentemente pequenos, mas que servem como gatilhos e crescem em um efeito dominó.

Para concluir, quem é que muda? Só muda quem pode mudar. Só muda quem tem liberdade e possibilidade de mudar. Uma vez que haja a liberdade e a vontade ou a necessidade, não há caminho de volta. A mudança se torna inevitável.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Velhice e sabedoria

Aprender a viver não é algo que vem automaticamente, só por estarmos vivos. Apenas completar mais um ano de vida não nos torna mais sábios, só nos torna mais velhos. Há sempre o risco acabarmos como o rei Lear, em romance homônimo de Shakespeare, para o qual é dito "Não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".

Há quem vive no piloto automático, sem refletir em como se dá sua relação e interações com o mundo. Criar consciência e tomar um pouco do controle é importante. Para isso, às vezes é necessário uma mudança de perspectiva, e às vezes é necessário relembrar coisas esquecidas. Ouvir histórias dos outros e adquirir o conhecimento dos que viveram experiências diferentes é fundamental para se tornar mais sábio e levar uma vida melhor. Também é importante realizar exercícios diários de auto-consciência para não sermos simplesmente levados pelo mundo.

A inspiração de hoje é o vídeo do Pedro Calabrez sobre uma das filosofias práticas mais interessantes, o estoicismo. O Pedro acaba misturando um pouco com outras coisas, mas as mensagens principais são o que valem.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paradoxo do amor

Todo mundo tem defeitos e qualidades. Mas, muitas vezes, quando adentramos um ambiente social novo ou acabamos de conhecer alguém, escondemos um pouco os defeitos. Normalmente evitamos ser grossos ou mal educados com pessoas que não conhecemos ou com quem não temos intimidade. Por outro lado, as pessoas mais íntimas a nós, as que mais gostamos, são as que mais sofrem com os nossos defeitos. Esse é o paradoxo.

Geralmente são as pessoas que mais amamos e mais próximas a nós que tem que lidar com nosso estresse, nossas angústias, nossa irritação. Damos respostas atravessadas, chegamos atrasados com quem temos intimidade porque, no fundo, temos a esperança de que aquela pessoa é a que nos compreende e que nos perdoa. Nem sempre é o caso e nem sempre o outro é tão compreensível. O outro também tem seus defeitos, limitações, irritações.

Por fim, para encerrar em uma nota positiva, digo que a pessoa próxima que mais sofre com os nossos defeitos, que colhe os ônus de conviver conosco também é a que colhe os maiores bônus dessa convivência. É a que consegue enxergar e reconhecer em nós as nossas qualidades e que recebe os maiores benefícios das mesmas. E, se as qualidades realmente compensam, então vale a pena suportar os defeitos, sim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Legos da vida

Quando eu era criança, eu tinha um amigo do qual eu era muito próximo. Passávamos um bom tempo juntos, jogando video-game, brincando com Lego e outras coisas. Um certo dia, tivemos a ideia de juntarmos nossas coleções de Lego para termos mais peças e podermos fazer coisas maiores e mais legais. Fizemos isso sem consultar nossos pais e depois contamos pra eles. Lembro que, à época, minha mãe ficou bem brava e eu não entendia o porquê. Na minha cabeça, seríamos amigos para sempre e poderíamos sempre brincar de Lego juntos. Enfim, eu era apenas uma criança e minha mãe tinha razão no assunto. Meio contrariado, separamos todas as peças. Com certeza fiquei com algumas das peças dele e ele ficou com algumas minhas, nada demais.

Porém, o objetivo deste texto não é a anedota em si. Percebi, depois que comecei a morar com outras pessoas, que a história do Lego é uma paródia para a vida. Atualmente, moro com outras quatro pessoas, cada um com seu jeito, suas ideias e suas coisas. De certa forma, misturamos os Legos das nossas vidas e, agora que estou pensando em sair e voltar a morar sozinho, estou imaginando como vai ser o processo de separação. Porque os Legos não são apenas analogia para coisas materiais, como também para conversas e momentos compartilhados juntos.

Misturamos nossos Legos com de outras pessoas em maior e menor grau durante todas nossas vidas. Acredito que, para um casal que passou anos casado, uma separação, em especial litigiosa, deve ser bastante complicada. Legos que foram misturados, trocados e transformados não voltam mais a ser como antes. Como dizer o que é de quem, sendo que as peças nem são mais as mesmas?

De qualquer forma, o mais importante é tentar sair satisfeito com os Legos que a vida te dá e estar feliz consigo mesmo.

Fuga da realidade

Uma vez meu pai me disse que estamos e estaremos sempre sozinhos nesta vida. Você nunca vai conseguir fazer as pessoas pensarem o que você pensa, sentir o que você sente e agir como você age. Você nasce sozinho e você morre sozinho. Quando duas pessoas fazem sexo, o prazer é de cada uma e o gozo é individual, por mais que as duas estejam ali envolvidas no momento. No seu íntimo, você é uma ilha, estará sempre sozinho.

Em parte, meu pai estava certo. O detalhe é que nossas interações com o mundo físico e social são ininterruptas. Por cima do seu íntimo isolado, você tem todo o resto. E você não consegue tirar o mundo da sua frente, ele está sempre lá. Nessas interações com o mundo, ele te afeta e você também afeta ele.

Há quem pense que o caminho para a felicidade está dentro de si. "Se meu interior está bem, não importa o que aconteça com o resto." Há quem se isole e há quem recorra a drogas, jogos, álcool e outros subterfúgios. Porém, isso não passa de fuga da realidade.

Somos animais sociais e nossos bem estar e saúde íntimos estão atrelados às nossas relações com o mundo. Buscar uma conciliação com o mundo e com a realidade, com todos os problemas, misérias, crueldades e ignorâncias, com nossos próprios defeitos e limitações é o que traz a paz interior e possivelmente a felicidade. É importante viver o mundo no mundo.

Não somos simplesmente uma ilha, o mundo está sempre lá. Você não consegue dissociar você mesmo do resto e, por mais que fujamos, uma hora a realidade bate à nossa porta.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

I wonder... What am I doing? What has changed?

Hoje senti como se estivesse meio perdido na vida. Não foi a primeira vez, nem vai ser a última. Tampouco sou o único a me sentir assim. Vários já relataram e interpretaram esse sentimento. Contudo, acredito que a sabedoria de vida ensina que nem tudo que há e que acontece necessita ter um propósito como imaginamos. Aprender a lidar com esse sentimento significa tornar-se mais sábio. Não só lidar, mas aceitar e até gostar. Porque, se por um lado, estamos perdidos, quer dizer também que estamos livres para deliberar sobre nossos caminhos e nossas escolhas.

"Quem manda em mim, quem me amarra, quem me controla também me seduz. Quem me dá liberdade me joga num vazio difícil de ser preenchido."

Esse vazio chamado liberdade... Muitas vezes optamos por nos prender a algo, numa espécie de servidão voluntária, para não sentirmos o vazio existencial e a angústia de tomarmos decisões que implicam, necessariamente, em perdas. Inclusive fazemos isso quando assumimos para nós uma certa identidade. Buscamos essa segurança e colocamos a culpa no "eu" como se falássemos de outra pessoa, pela qual não temos responsabilidade. "Não tenho culpa se sou impulsivo, se sou nervoso, se sou irritado."

Ultimamente, tenho me observado mais e aprendido a lidar melhor com meus sentimentos e pensamentos. O mundo me alegra e me entristece sem que eu tenha controle sobre isso. Mas, no fundo, o que mudou de verdade? Quase nada... Apenas uma súbita realização da minha própria ignorância, à medida em que tomo conhecimento e interajo com as coisas que me cercam.

E, por fim, tenho conseguido me alegrar, mesmo com a minha própria tristeza, justamente por ser uma tristeza auto-consciente, a qual eu aceito, vejo como parte da minha existência, e de mim mesmo. Alegro-me também por saber que a tristeza, por pior que seja, assim como a vida, é passageira.