segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O que buscar em um relacionamento?

Minutos Psíquicos é um canal do YouTube sobre psicologia. Recentemente, eles fizeram uma ótima série de vídeos sobre relacionamentos, incluindo temas como casamento, estar solteiro e a busca pela pessoa certa:



Há vários pontos interessantes nos vídeos. Sintetizo aqui os que mais me chamaram a atenção:
- Casar não te faz necessariamente mais saudável ou mais feliz;
- Casais que dão certo possuem boa comunicação e se focam nos aspectos positivos do parceiro para construir sua visão global do parceiro e do relacionamento ao invés de focarem em aspectos negativos;
- Com o passar do tempo e mudança das pessoas e do relacionamento, os casais que dão certo mudam aquilo que valorizam mais, passando a dar menos importância às coisas que pioraram;
- Casais felizes entendem os comportamentos negativos do parceiro como motivados por fatores externos. São mais benevolentes e tolerantes com erros e defeitos do parceiro;
- Casais infelizes vêem comportamentos negativos do parceiro como características indesejáveis dele, são menos benevolentes e menos tolerantes;
- Casais dispostos a fazer sacrifícios pelo bem do relacionamento conseguem lidar melhor com os problemas, divorciam menos e correm menos risco do relacionamento se deteriorar;
- Solidão crônica faz mal para a saúde, mas apenas àqueles que não escolheram estar sozinhos;
- Pessoas solteiras tendem a se sentir mais conectadas aos outros (família e amigos) do que pessoas casadas, possuem melhor forma e possuem mais autodeterminação e desenvolvimento pessoal;
- A sociedade cobra que as pessoas casem e tenham filhos, mas não há uma fórmula única de viver a vida que fará com que todos sejam felizes;
- Não somos racionais quando escolhemos nossos parceiros. Devemos aprender a julgar a pessoa com que estamos de maneira mais lúcida e racional;
- Atração física é importante no início, mas, a longo prazo, a personalidade e a maneira como a pessoa te trata são mais decisivas;
- Muitas vezes somos vítimas do viés da negatividade. Prestamos mais atenção nos defeitos do que nas qualidades dos outros. Ao invés de procurar pelas qualidades que nos fariam felizes em uma pessoa, acabamos rejeitando-a assim que identificamos algo negativo. Ninguém é perfeito, portanto, rejeitar rapidamente uma pessoa ao identificar um defeito pode levar a rejeitar uma pessoa com várias qualidades positivas que são mais importantes que o defeito em si e, por consequência, rejeitar uma pessoa que talvez te fizesse feliz;
- Há também o fenômeno ou efeito Michelangelo. Por vontade própria ou não e de maneira consciente ou não, acabamos esculpindo o self, as habilidades e personalidade do parceiro. Essa influência pode estimular ou inibir o crescimento e a relização pessoal do parceiro, aproximando-o ou distanciando-o do self ideal. O self ideal é a visão ideal de quem você gostaria de ser e está relacionado a como você se imagina no futuro, quais características e habilidades você idealmente quer ter e em quais metas e objetivos você quer chegar;
- Um parceiro romântico pode te ajudar, ser neutro ou te atrapalhar a tentar alcançar o self ideal, dependendo de como ele te vê e de como ele te trata. Devemos nos relacionar com pessoas que nos estimulem e nos apoiem a ser quem gostaríamos de ser. Pessoas que fiquem felizes quando nos aproximamos do nosso self ideal. Com isso, melhoram o bem-estar, a saúde e a qualidade do relacionamento;
- Devemos nos afastar de parceiros que nos desaprovam e que nos afastam daquilo que valorizamos, dos nossos objetivos e do nosso self ideal. Há pessoas que são muito mais inimigas do que aliadas da nossa felicidade.

Às vezes pode parecer difícil encontrar alguém que nos complete, ainda mais em tempos líquidos como os nossos. Acho que compreender o que acontece com nós mesmos e com os outros é o primeiro passo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Tristeza e raiva

- O quê...
- Apenas escute. É uma história de um homem velho prestes a morrer. O ódio é o lugar para onde vai um homem que não consegue suportar a tristeza. A vingança é mais escura que mancha de sangue. A tristeza é uma adaga afiada para acertar seu coração. Com o passar dos dias, apenas fica mais afiada. A única coisa que resta é o seu poder.
- Ei, ei... Isso não parece com você. Você vai me dar sermão?
- Sua maneira de viver também não é ruim. Mas eu vejo um corte no seu coração. O medo deixou uma rachadura nele.

Berserk é uma das minhas histórias favoritas. Em geral, acho que a força da narrativa mostra-se mais pelos acontecimentos e atitudes dos personagens do que pelos diálogos em si. No entanto, essa cena em particular, entre Guts e Godot, me chamou a atenção.

"O ódio é o lugar para onde vai um homem que não consegue suportar a tristeza."

Tristeza e raiva são faces da mesma moeda. Em qualquer situação em que você sente raiva, seria possível sentir tristeza no lugar. A raiva surge do inconformismo, surge quando acreditamos que o motivo de nossa tristeza ou frustração poderia não existir. A tristeza é a raiva conformada. E é o que sobra quando deixamos a raiva de lado. E, quando deixamos a tristeza de lado, o que sobra é a resignação.

O homem que não sente raiva não é o homem impassível, sem sentimentos. O homem que não sente raiva é o que sabe lidar bem com as situações de tristeza. É o homem que sabe que não possível mudar o passado. É o homem sábio.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Duke Ellington e Trapaça

Não sou uma pessoa com grandes ilusões na vida, nem grandes ambições e desejos. Acho que a única ilusão que verdadeiramente mexe comigo é a do amor romântico. E é uma coisa que tenho tentado trabalhar mais comigo mesmo, para ser menos iludido. Em particular, existe uma fantasia que povoa meus pensamentos.

Há uma cena no filme Trapaça, acerca de Duke Ellington, um artista de jazz famoso, na qual os protagonistas Irving e Sydney se conhecem.

No meio de uma festa, Irving e Sydney se avistam. Ela estica o braço para alcançar um petisco. Ele segura seu braço e pergunta:
- É o Duke Ellington no seu bracelete?
Sydney:
- De fato, é sim. Ele morreu neste ano, você sabe...
Irving:
- Eu sei, duvido que alguma outra pessoa aqui saiba ou se importe com isso.
Sydney:
- Bem, eu me importo. Ele salvou minha vida muitas vezes.
Irving:
- A minha também. Qual delas?
Sydney:
- Jeep's Blues.
Irving:
- Você quer escutar?
Sydney:
- Agora?
Irving:
- Sim.
Sydney:
- Claro.
Então, eles seguem para uma sala mais reservada para escutar Jeep's Blues.
Irving:
- Quem começa uma música dessa maneira?
Sydney:
- É mágica.
Irving concorda:
- É mágica.
Sydney analisa Irving:
"Ele não estava necessariamente em forma, e ele tinha esse penteado que era todo elaborado. Ele tinha essa aura em torno dele. E ele tinha essa autoconfiança que me atraiu. Ele sabia quem era. Ele não se importava."
Irving:
"Como eu, ela era uma pessoa bastante peculiar. Como eu, ela veio de um lugar em que suas opções eram limitadas."
Sydney:
"Na verdade, pode ser meio sexy algumas vezes. Há uma ousadia nisso tudo. Mas aonde essa ousadia me levaria? Eu não sabia, mas eu iria descobrir."



Na continuação da cena, Irving prossegue:
"Ela era diferente de todo mundo que já conheci. Ela era inteligente. Ela via através das pessoas nas situações. E ela sabia viver com paixão e estilo. Ela entendia Duke Ellington."

De alguma maneira, eu ainda espero encontrar a pessoa que entenda Duke Ellington na minha vida. Acho que entender Duke Ellington é uma metáfora excepcional. Pode ser muito mais amplo do que é descrito no filme, mas, ainda assim, a forma como é feito é de uma sensibilidade gigante. O filme mostra, de maneira poética, que podemos nos apaixonar por pessoas reais. Pessoas com defeitos e imperfeitas. Podemos enxergar a pessoa de quem gostamos sob a lente do romantismo. A cena retrata, de maneira elusiva, o momento em que uma pessoa se apaixona por outra. Tem uma certa mágica, mas nem sempre é tão glamouroso.

Entender Duke Ellington não é só saber viver com paixão e estilo. Entender Duke Ellington trata-se de conectar-se ao outro, entender o parceiro, ter sensibilidade e empatia, da mesma forma que a música do mesmo causa esses efeitos e essas sensações. Entender Duke Ellington pode ser uma coisa universal, mas também pode ser muito particular de cada casal. Cada casal tem seu Duke Ellington. Cada casal tem alguma coisa que o conecta e que o aproxima.

Particularmente, para mim, entender Duke Ellington trata-se de desapego. Trata-se de inteligência, de paciência, de companheirismo, de resiliência, de humildade, de alegria e de conseguir enxergar mais do que apenas o seu próprio ponto de vista. Para mim, entender Duke Ellington também significa gostar de Duke Ellington, de fato, e saber apreciar sua música.

domingo, 5 de novembro de 2017

Pessoas

Somos todos pessoas
Mas entre deuses e homens
Anjos e demônios
Achamos que vivemos

Escolhemos nosso veneno
Ficção ou realidade, não interessa
A dor e o prazer são reais

Abrir os olhos é difícil quando não queremos enxergar
Não tentamos voar se não achamos que temos asas
E às vezes é difícil até se equilibrar sobre as próprias pernas

Quem tem controle tem liberdade, fato
Mas as estações continuam mudando
E Saturno engole a tudo e a todos
O que de pior poderia acontecer?

Continuamos encarando o abismo esperando que ele nos encare de volta
Continuamos vivendo realidades e sonhos caducos e claudicantes
Continuamos sendo quem somos
Continuamos sendo quem podemos ser

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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Mecanismos de motivação a curto prazo

"O que te motiva?"

Essa é uma pergunta que nem sempre é fácil de responder. A longo prazo, talvez um objetivo ou uma meta de vida. Porém, uma coisa que já ocupou minha mente por diversas vezes é o mecanismo pelo qual as pessoas podem ser motivadas a curto prazo. Motivar-se a curto prazo, é muito diferente do que a longo prazo, pois as tarefas diárias e cotidianas para alcançar alguma meta muitas vezes são chatas, desinteressantes, difíceis, aparentemente sem propósito e sem grandes recompensas. Além disso, cada indivíduo é diferente. Cada pessoa reage de maneira diferente a um mesmo estímulo. E, dependendo de como a pessoa esteja se sentindo, ela pode reagir de maneira diferente a um tipo de situação que ocorra em momentos distintos. Ninguém é o mesmo o tempo todo.

Se você tem um cargo de chefia em uma empresa, e um funcionário não está realizando as tarefas adequadamente, você pode brigar com ele e xingá-lo. Duas coisas podem acontecer:
- Ele ficar mais desmotivado e, possivelmente, triste ou com raiva de você;
- ou ele pode ficar motivado a fazer o que você quer, de uma maneira melhor.
Há muitas coisas envolvidas nessa dinâmica, como personalidade, auto-estima, acontecimentos externos, humor e até desequilíbrios em neurotransmissores. Saber como lidar individualmente com cada pessoa de uma equipe é um papel fundamental de um líder. É necessário conhecer as pessoas com quem você convive e de quem você precisa. Alguns se sentem motivados sob pressão, outros necessitam de uma conversa motivacional mais sensível e menos agressiva, voltada à empatia.

Outro fato interessante é que, se você diz para si mesmo que você é capaz e que as coisas vão dar certo no futuro, é diferente de chegar outra pessoa e dizer o mesmo. Motivar-se é, em geral, mais difícil do que motivar outros. Por isso é importante a conversa com parentes, amigos e psicólogos. O mesmo vale para elogios. Dizer para si mesmo que é bonito ou inteligente é diferente de ouvir dos outros. De alguma maneira, damos mais valor ao que os outros falam, tanto para o bem quanto para o mal.

Atualmente estou me sentindo bem comigo mesmo e estou motivado para fazer o que preciso, contudo, há pouco tempo atrás não era o caso. Estava mal e desmotivado. Nessa mesma época, estava assistindo à animação BoJack Horseman, que já foi tema de alguns posts aqui, e uma das cenas me marcou bastante. É a cena em que BoJack fica repetindo para si mesmo "Piece of shit, stupid piece of shit" (Seu pedaço de merda, seu pedaço de merda estúpido). E, cada vez que eu me olhava no espelho ou fazia algo que eu não achava que deveria estar fazendo, me vinha na cabeça a cena e o mesmo pensamento: "Seu bosta, seu monte de merda. Para de fazer isso, seu merda". Mas eu não me sentia mal com isso. Pelo contrário, admitir para mim mesmo que eu era um bosta ou que estava fazendo merda me deixava mais motivado a não ser um bosta e não fazer merda. É engraçado, pois sempre fui do tipo que tenta ter pensamentos positivos e se motivar com discursos de que "as coisas vão dar certo," que "é preciso ter força" ou similares, mas sinto que isso nunca deu muito certo pra mim. Algumas vezes ajudava quando ouvia isso dos outros, mas nem sempre. Enfim, isso faz parte do caminho do autoconhecimento. Cada um é de um jeito. Falar para uma pessoa depressiva que ela é uma merda provavelmente não ajude tanto...



domingo, 29 de outubro de 2017

Mudanças de narrativa, ressignificação e autoimagem

"Nada acontece no tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu poder mágico. Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, um modo de mútua influência entre os homens."

Nossa memória é seletiva. Dependendo de quem você é e das coisas que acontecem, você acaba lembrando muito mais dos aspectos positivos ou negativos. A forma como contamos as histórias para nós mesmos e para os outros muda completamente a maneira como vemos os fatos e como nos sentimos. Toda mudança de sentimento em relação a coisas e pessoas é acompanhada por uma mudança de narrativa.

"Eu gostava de fulano, mas depois descobri uma coisa que me fez mudar de ideia."
"Eu não gostava de ciclano, mas percebi que ele era diferente do que eu pensava."

Além disso, histórias que contamos sobre nós mesmos quase sempre tendem a proteger nossa autoimagem. Quase ninguém fala algo do tipo "fiz merda porque sou uma pessoa de merda" ou "agi de maneira errada porque realmente não valho nada." O indivíduo que fala esse tipo de coisa é avaliado como alguém que possui uma autoestima reduzida ou que possui problemas de caráter moral. Quase sempre colocamos a culpa sobre nossas decisões ou atitudes ruins em fatores e circunstâncias externas ou que não eram possíveis controlar. No existencialismo, isso é chamado de má fé.

"Agi errado porque estava com raiva."
"Fiz errado porque não me ensinaram."
"Agredi porque me provocaram."

Existe pesquisa que diz que a maioria das pessoas, se perguntada "você se considera uma pessoa mais inteligente que a média?", responde que sim (é chamado de efeito Dunning-Kruger e se aplica a outras áreas também). Essa proteção da autoimagem não é algo errado, é questão de saúde mental. Se uma boa parte das pessoas achasse que possui um valor reduzido, seria um grande problema para elas mesmas. Precisamos recontar nossa própria história quando nos sentimos ameaçados, quando isso nos deixa mal ou para manter uma coerência interna. Precisamos proteger nossa identidade.

Nossa identidade, o que somos e o que pensamos são algumas das coisas mais valiosas que temos. Por isso você vê tanta gente capaz de brigar, discutir e até matar por coisas com as quais se identificam ou contra coisas que ferem sua identidade. É o caso de certas manifestações políticas ou do machão que se descobre corno. E, por isso, algumas pessoas consideram ataques às suas ideias como ataques pessoais.

Prosseguindo, acredito que nossa memória emocional geralmente é mais forte do que a memória dos fatos propriamente dita. Em muitas ocasiões, não lembramos exatamente como aconteceram as coisas, mas podemos nos lembrar de como nos sentimos na hora. Por isso mudar nossa narrativa acaba sendo uma tarefa fácil na maioria dos casos. Não precisamos mudar o que aconteceu, apenas como nos sentimos em relação ao que aconteceu. E, para mudar como nos sentimos, acabamos mudando a narrativa. Acabamos mudando a forma como contamos a história.

Por exemplo, o significado de uma pessoa na sua vida começa a mudar no instante em que a mesma decide terminar um relacionamento amoroso com você. Com isso, muda sua visão sobre ela, mudam as histórias que você conta sobre ela e muda o sentimento que você tem por essas histórias e por essa pessoa. A imagem da pessoa é ressignificada. Você deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é amor. Deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é carinho. Acho isso triste, mas é necessário para que a vida possa seguir.

As narrativas possuem um poder muito forte sobre nossas vidas. A maioria das pessoas não percebe isso. A maioria das pessoas muda as narrativas sem ter consciência. Mudar a narrativa é ressignificar. Ganhar poder sobre suas próprias narrativas significa ter controle sobre sua própria vida. Isso levanta uma série de dúvidas e questionamentos sobre o que é a verdade. Mas deixo essa discussão para um outro momento.

"A memória é uma ilha de edição."


Contém spoilers:

sábado, 28 de outubro de 2017

BoJack Horseman, quem somos e o que nos satisfaz

Terminei a 4a temporada de BoJack Horseman.

Depois da 1a temporada, acho que a história começa a seguir uma evolução natural. E a questão principal de BoJack começa a se concentrar em um ponto: da responsabilidade que temos sobre aquilo que somos. BoJack continua decepcionando as pessoas e fazendo merda. Ele usa a história e a criação ruim que teve pra justificar quem ele é. A reflexão que BoJack propõe é: até que ponto somos frutos do meio e até que ponto temos a liberdade de sermos o que queremos? Aos poucos é possível ver que BoJack quer realmente mudar e que ele está mudando. Ele quer quebrar o ciclo ao qual se vê preso. Acho que a lição final do desenho é que, não importa se você teve uma vida de merda, você pode ser uma pessoa melhor.

Fora isso, a série tem muitas outras questões menores e se mantém pela riqueza das interações humanas entre os personagens. Uma das outras questões é sobre encontrar satisfação na vida. Cada personagem procura alguma coisa que lhe traga satisfação, pra preencher o vazio em que se encontra. No caso de BoJack, ele tenta, mas não consegue, porque não vê propósito em nada. E, por mais que os outros personagens pareçam diferentes, eles possuem um ponto em comum. Estão sempre insatisfeitos com alguma coisa e os momentos de felicidade que acontecem em suas vidas acabam sendo efêmeros. Todos estão sempre procurando algo. Ninguém consegue ser feliz com o que tem. Acho que isso, no fundo, é uma verdade da vida....

Também queria fazer um comentário sobre as intrincadas interações humanas. BoJack, apesar de odiar sua mãe, no último instante, apresenta um momento de compaixão. É uma colocação sutil que, para quem não tem sensibilidade, passa despercebida. Mas, por essas e outras situações na série, é possível ver que há beleza naquilo que é simples, como um sentimento. E que a simplicidade e a complexidade muitas vezes flertam e interagem de maneira confusa, resultando em situações que não são muito claras.

Por fim, queria poder falar que o amor sempre vence no final, mas isto seria mentira.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ausência

Algumas presenças se tornam ausência
Ausência que se faz presente e é sentida no fundo da alma
É como página rasgada de um livro
Buraco no asfalto do coração
Janela que fica aberta na alma
Quebra-cabeça faltando as peças

Mas não é déjà vu
Por mais que seja igual, é diferente
Tão diferente que parece algo novo
Faz-me sentir como criança
Faz-me sentir inseguro
Faz-me desejar que não aconteça de novo

Flagelo-me para ver se ainda consigo respirar depois que meu coração parar de bater
É questão de tempo, mas não de desejo
Só o que posso dizer é que é real
E, com um sorriso triste de outono, lembro que o futuro acontece independentemente


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

BoJack Horseman, aparentes contradições e o desejo de ser amado

Ontem terminei de ver a primeira temporada de BoJack Horseman.

O enredo em si não aparenta ser nada espetacular, pelo contrário, parece até ser meio ridículo. É sobre um cavalo antropomórfico que foi sucesso em uma série de TV dos anos 90, do tipo "Três é demais". Ele fica rico e depois cai no ostracismo, passando a vida bebendo, fazendo coisas de moral duvidosa e jogando dinheiro fora. Porém, muitas vezes, o que importa não é o "quê", e sim o "como".

Para mim, o ponto alto do desenho é a construção dos personagens. Todos eles parecem usar máscaras para disfarçar fraquezas e aquilo que não gostam em si mesmos. Por isso, acabam adotando ou perseguindo posturas que são o contrário do que são. Aparentemente, isso gera uma série de contradições em suas personalidades, contudo, há um sentido na forma em que agem. O fato de alguns serem retratados como animais apenas reforça certas características.

Princess Carolyn aparenta ser uma mulher forte e independente, mas, no fundo, é carente. Diane quer ser bem sucedida para que sua família tenha orgulho dela. Todd quer fazer coisas grandiosas porque não quer ser um idiota inútil. Mr. Peanutbutter está sempre feliz e animado para esconder o vazio que é sua vida. E BoJack.... BoJack é narcisista e egoísta e, por isso, as pessoas não gostam dele. Tudo isso para se reafirmar diante de sua baixa autoestima, medo da solidão e da vontade de ser aceito pelos outros.

Um tema que eu vejo em comum a todos os personagens é o desejo de ser amado, de uma maneira ou de outra. De certa forma, acho que isso é uma reprodução da realidade. Todo mundo quer ser aceito como é, com seus defeitos e tudo mais. No entanto, todo mundo tenta escondê-los e ninguém quer se mostrar vulnerável. No fim, a vida acaba sendo cheia de desencontros. Pessoas magoam umas às outras e se isolam. E, às vezes, aparentamos muito mais estar fugindo de alguma coisa do que perseguindo algo de fato.

"Do que tens medo? Do que foges?"

Somos felizes?

"Esse é o problema com a vida, não é? Ou você sabe o que quer e não consegue o que quer, ou você consegue o que quer e então não sabe o que quer."

Somos felizes e não sabemos? Ou somos infelizes e também não sabemos?

Do ponto de vista filosófico, há uma série de perguntas que podemos nos fazer e que servem de indagações para avaliarmos se estamos vivendo uma vida satisfatória. Listo aqui algumas delas:
  • Sua vida é prazerosa? Ou é sofrida?
  • Você age de maneira moral? Você segue princípios?
  • Você se sente uma pessoa livre? Você acha que tem liberdade para escolher o próprio caminho e as coisas que quer?
  • O que você tem hoje em dia e o que você alcançou até o momento são coisas que você já quis algum dia? Já foram seu sonho ou objeto de seu desejo no passado?
  • Você imagina que as coisas que você deseja no momento tem realmente grande impacto sobre sua felicidade? Ou você as está subestimando ou superestimando? O que você quer está muito longe do que você precisa?
  • O lugar em que você se encontra agora (em termos de moradia/trabalho/estudo etc) te alegra ou te entristece? Você acha que está no lugar certo? Você acha que está fazendo aquilo que deveria? Você está fazendo aquilo que gostaria?
  • As pessoas com quem você convive te alegram ou te entristecem? Existe alguém com quem você quer conviver mais? Existe alguém de quem você sente falta? Você sente necessidade de conhecer pessoas novas?
  • Você se dá bem com sua família (pai, mãe, filhos, irmãos, etc)?
  • Você tem algum relacionamento amoroso? Tem alguém que você ame e cujo amor seja recíproco?
  • Se você fosse morrer amanhã ou na semana que vem, o que você faria? O que teria valor para você? Existiria algo de que se arrependeria? Existiria algo que você acha que deixou de fazer?
  • Se você fosse viver a vida que está vivendo agora por repetidas vezes, por mil, dez mil ou infinitas vezes, você iria querer viver esta vida deste jeito, exatamente da forma como tudo ocorreu?
  • Você teria vontade de fazer o que faz ou o que já fez inúmeras vezes? Se fosse continuar fazendo o que você faz hoje em dia para sempre, todos os dias, você continuaria fazendo e se alegraria com isso?
Claro, felicidade é mais que responder simples perguntas. E, para alguns, felicidade nem é a coisa mais importante da vida. Porém, não custa nada se questionar...