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sábado, 15 de agosto de 2020

Memento mori... Só que não

Há algumas semanas atrás, me peguei tendo uma saudade grande da minha mãe que gerou uma reflexão. A morte da minha mãe, pra mim, não fez muito sentido por alguns motivos. Primeiro, porque era uma morte que, ainda hoje, eu acho que poderia ter sido evitada. Segundo, porque eu acho que ela não queria ter morrido. E, terceiro, porque a vida dela fazia sentido pra mim.

A morte dela não fez sentido, mas a vida dela fazia. Isso me gerou alguns questionamentos.

Na filosofia, há uma frase famosa, enunciada como "memento mori", da qual uma tradução possível seria "lembre-se de que você vai morrer". E por que isso é importante?

Para quem é adepto dessa filosofia, lembrar-se da inevitabilidade da morte nos faria dar menos importância a coisas superficiais e passageiras, como o orgulho e a vaidade. Lembrar-se da morte nos faria dar mais valor às coisas verdadeiramente importantes.

Por exemplo:

"Briguei com as pessoas que eu gosto por conta de coisas não muito importantes. Não vou ser orgulhoso, vou pedir desculpas, pois pode ser que eu morra amanhã ou depois e não quero perder tempo de vida brigado por coisas pequenas."

Ou...

"Posso morrer amanhã ou depois, logo, vou fazer o meu melhor para deixar algo pra minha família que lhes possa ajudar ou dar um sustento."

Contudo, discordo desse pensamento. Não acho que a morte é que deve dar sentido à vida. Já há algum tempo, eu acho que a vida deve valer por ela mesma. A morte é, justamente, o que tira o valor da vida.

A morte é o fim último da vida, é o que acaba com a existência em um determinado sentido. Assim como eu acho que o valor da vida está na vida, acredito que o valor das coisas está no caminho e não nos fins. Os fins só servem como objetivos ou passagens intermediárias em um contexto maior de contiuidade.

Você normalmente só se preocupa em ir trabalhar e receber um salário pois acredita que vai continuar vivo mês que vem e que terá que pagar as contas e alimentação. A consciência dessa continuidade é que dá sentido à sua atitude de trabalhar por dinheiro.

Quase todas as metas que se colocam na vida são em favor do caminho em si ou da continuidade. Você normalmente só planeja em se formar na faculdade porque acredita que isso vai ser importante para sua vida depois ou pelo conhecimento adquirido em si. Não pelo próprio objetivo de se formar. E, mesmo que fosse pelo simples objetivo de se formar, a sua vida não acabaria ali. Sua vida não perderia sentido porque outros objetivos viriam e continuariam dando sentido à vida. A continuidade dá o sentido. Se, depois que se formasse, sua vida não tivesse mais sentido, não foi o objetivo de se formar que deu sentido à sua vida. Foi o objetivo de se formar que o tirou. Pois o fim tira o sentido da coisa e sua existência.

Se você tivesse a certeza que iria morrer daqui a um mês, não teria sentido entrar em uma faculdade agora, exceto se for algo que você goste de estudar, se for uma experiência que você queira ter ou tiver algo que queira aprender nesse último mês. Reitero, é o valor das coisas e da vida estão nelas mesmas.

Assim como só vale à pena construir patrimônio e deixar herança pela atividade em si ou para deixar como um legado importante. Só vale à pena escrever um livro pelo prazer ou aprendizado de escrever em si ou pra deixar para a posteridade, para a continuidade.

Diante do fim, diante da presença da morte, para as pessoas que não tem visão de continuidade, as coisas deixam de fazer sentido. Na proximidade da morte, aquilo que não faria sentido na vida "normal" pode passar a ser cogitado. Entram aqueles questionamentos do tipo "se você fosse morrer em um mês, o que faria? Assaltaria um banco? Andaria pelado na rua? Abandonaria o emprego e iria mergulhar com tubarões?". Na presença da morte, tudo é justificável e nada faz sentido.

Claro a sabedoria e o conhecimento que as coisas se acabam é importante. Mas não é isso que dá valor às coisas. Quando alguma coisa se vai, é a memória e o que fica dela que é importante.

Com base nessas reflexões, como devemos encarar a vida?

A vida deve ser encarada como se não fosse ter fim, com a consciência de que suas ações tem consequências. Se você morre, fica o que você deixou. As coisas continuam. Inclusive se você briga com quem você tem apreço. Isso tem consequências e continuidade, e isso importa. E, por isso, valeria à pena abrir mão da vaidade e do orgulho e não porque você vai morrer em algum momento. Porque, se pensamos que tudo, inclusive o universo, vai ter fim um dia, então qual seria o sentido das coisas? Logo, por mais que, racionalmente, saibamos que o fim existe, que vivamos como se não soubessemos, mas, repito, com a consciência de que as coisas tem consequências e de que as consequências importam.

PS:  Escrevi este texto como forma de provocação. Se as coisas fossem realmente infinitas e não acabassem, elas também não fariam sentido. A solução? Abraçar o niilismo.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Sobre a beleza

"É melhor ser belo do que ser feio."

Ultimamente tenho pensado sobre a beleza. Independente do que consideramos belo ou feio como cultura e sociedade, se você pudesse escolher entre ser considerado belo ou feio, o que você escolheria?

Naturalmente, é melhor ser bonito do que feio. Mas por quê? O que significa ser belo e o que isso implica? Qual seria a relação disso com a objetificação de pessoas?

Bom, primeiramente, as regras pelas quais definimos o que é bonito e o que é feio é uma disputa política. Não no sentido mais comum, de congressos e parlamentos, mas num sentido mais amplo. Há várias pessoas que literalmente  se esforçam para serem consideradas bonitas (como atrizes, atores e modelos). E há pessoas que validam sua beleza (geralmente pessoas em relação de poder, como o responsáveis pelo casting de filmes e comerciais, e diretores). Essas pessoas, em conjunto, definem os padrões estéticos da sociedade.

Uma vez definidos esses padrões estéticos, outros buscarão se encaixar nesse mesmo padrão. Se na China, em algum período, foi definido que mulheres com pés pequenos eram atraentes, fez com que as mulheres (possivelmente coercitivamente) buscassem, até mesmo por técnicas torturantes, ter pés pequenos. Ou como as mulheres que utilizavam anéis ao redor do pescoço para ficar mais comprido.

Hoje em dia, há mulheres que se deixam objetificar em quase qualquer lugar da internet e do mundo. Mas o que justifica que essas mulheres, por vontade própria, postem fotos seminuas (ou nuas) que permitem a objetificação o próprio corpo?

Acho que, para procurar uma resposta, é interessante olhar para a dialética mestre-escravo de Hegel, presente na Fenomenologia do espírito, e fazer uma analogia. "A passagem descreve o desenvolvimento da autoconsciência como se fosse o resultado de um encontro entre dois seres distintos e também autoconscientes".

Uma pequena digressão:
O que não sou eu é o outro. O outro, que é diferente, que faz com que eu crie uma autoconsciência (Se o outro fosse igual a mim, só existiria o "eu"). Daí surge um embate, porque eu quero mais de mim mesmo no mundo, eu quero mais de mim mesmo inclusive no outro. Eu não gosto do que é diferente, porque o outro me diminui. A presença do outro faz com que haja menos de mim mesmo no mundo. Eu quero que o outro seja como eu. Mas, no momento em que o outro se submete e se torna como eu, a minha autoconsciência fracassa. E o outro, que se submete e se deixa dominar, também passa a ter poder sobre mim. O mestre, que não trabalha (e, muitas vezes, nem sabe realizar o trabalho), depende do escravo para lhe dar o sustento. A minha existência passa, então, a depender da existência do outro.

Logo, se eu projeto meus gostos e preferências estéticas sobre o outro (projetando o meu "eu" sobre ele) e ele corresponde a essa espectativa, ele não está apenas se submetendo, mas também obtendo poder sobre mim.

As mulheres que buscam a beleza por meio de posições objetificantes buscam, também, o poder sobre o olhar do outro que, muitas vezes, acaba se revertendo para outros tipos de poderes (simbólico, econômico, financeiro).

Outras questões surgem: se os padrões estéticos não fossem os atuais, quais seriam? E, caso fossem realmente diferentes, o que mudaria?

Bom, os padrões estéticos são definidos em uma disputa política de poder. Logo, posições de poder geralmente possuem prerrogativa e possibilidade de definir o que é belo culturamente e em uma sociedade. Se as posições de poder se alternassem e, por exemplo, mais mulheres as ocupassem, a opressão e objetificação do corpo feminino acabaria? Muito possivelmente diminuísse, mas não acabaria. Porque a beleza não só é definida pelos que tem poder. A própria beleza é poder. Logo, qualquer que fosse o padrão estético, as pessoas continuariam buscando-o, mesmo que fossem objetificadas no processo.

Não há como abolir padrões estéticos visto que o ser humano, por natureza, categoriza e separa as coisas (entre belo e feio, forte fraco, bom e mau, etc). E, como beleza é um valor puramente visual, muitas vezes desconectado de qualquer outro valor, a busca pela beleza continuaria objetificante. Mas, ainda assim, seria melhor ser belo do que ser feio.

Os "feios" sempre continuarão relegados à rejeição social. Contudo, claro, podemos, como sociedade, dar mais importância a outros valores que não simplesmente o capital estético das pessoas. Só me parece improvável porque assim como julgamos a estética das coisas (ambientes, decorações, roupas e até video-games. Hoje em dia tudo tem design envolvido), julgamos a estética das pessoas. Nós não conseguiríamos ter um olhar que julga a beleza dos objetos e do mundo que nos cercam, mas que é cego para a beleza das pessoas e não as julga (e nem as objetifica).

domingo, 29 de outubro de 2017

Mudanças de narrativa, ressignificação e autoimagem

"Nada acontece no tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. As palavras originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu poder mágico. Por meio de palavras, uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, um modo de mútua influência entre os homens."

Nossa memória é seletiva. Dependendo de quem você é e das coisas que acontecem, você acaba lembrando muito mais dos aspectos positivos ou negativos. A forma como contamos as histórias para nós mesmos e para os outros muda completamente a maneira como vemos os fatos e como nos sentimos. Toda mudança de sentimento em relação a coisas e pessoas é acompanhada por uma mudança de narrativa.

"Eu gostava de fulano, mas depois descobri uma coisa que me fez mudar de ideia."
"Eu não gostava de ciclano, mas percebi que ele era diferente do que eu pensava."

Além disso, histórias que contamos sobre nós mesmos quase sempre tendem a proteger nossa autoimagem. Quase ninguém fala algo do tipo "fiz merda porque sou uma pessoa de merda" ou "agi de maneira errada porque realmente não valho nada." O indivíduo que fala esse tipo de coisa é avaliado como alguém que possui uma autoestima reduzida ou que possui problemas de caráter moral. Quase sempre colocamos a culpa sobre nossas decisões ou atitudes ruins em fatores e circunstâncias externas ou que não eram possíveis controlar. No existencialismo, isso é chamado de má fé.

"Agi errado porque estava com raiva."
"Fiz errado porque não me ensinaram."
"Agredi porque me provocaram."

Existe pesquisa que diz que a maioria das pessoas, se perguntada "você se considera uma pessoa mais inteligente que a média?", responde que sim (é chamado de efeito Dunning-Kruger e se aplica a outras áreas também). Essa proteção da autoimagem não é algo errado, é questão de saúde mental. Se uma boa parte das pessoas achasse que possui um valor reduzido, seria um grande problema para elas mesmas. Precisamos recontar nossa própria história quando nos sentimos ameaçados, quando isso nos deixa mal ou para manter uma coerência interna. Precisamos proteger nossa identidade.

Nossa identidade, o que somos e o que pensamos são algumas das coisas mais valiosas que temos. Por isso você vê tanta gente capaz de brigar, discutir e até matar por coisas com as quais se identificam ou contra coisas que ferem sua identidade. É o caso de certas manifestações políticas ou do machão que se descobre corno. E, por isso, algumas pessoas consideram ataques às suas ideias como ataques pessoais.

Prosseguindo, acredito que nossa memória emocional geralmente é mais forte do que a memória dos fatos propriamente dita. Em muitas ocasiões, não lembramos exatamente como aconteceram as coisas, mas podemos nos lembrar de como nos sentimos na hora. Por isso mudar nossa narrativa acaba sendo uma tarefa fácil na maioria dos casos. Não precisamos mudar o que aconteceu, apenas como nos sentimos em relação ao que aconteceu. E, para mudar como nos sentimos, acabamos mudando a narrativa. Acabamos mudando a forma como contamos a história.

Por exemplo, o significado de uma pessoa na sua vida começa a mudar no instante em que a mesma decide terminar um relacionamento amoroso com você. Com isso, muda sua visão sobre ela, mudam as histórias que você conta sobre ela e muda o sentimento que você tem por essas histórias e por essa pessoa. A imagem da pessoa é ressignificada. Você deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é amor. Deixa de associar a pessoa ao seu conceito do que é carinho. Acho isso triste, mas é necessário para que a vida possa seguir.

As narrativas possuem um poder muito forte sobre nossas vidas. A maioria das pessoas não percebe isso. A maioria das pessoas muda as narrativas sem ter consciência. Mudar a narrativa é ressignificar. Ganhar poder sobre suas próprias narrativas significa ter controle sobre sua própria vida. Isso levanta uma série de dúvidas e questionamentos sobre o que é a verdade. Mas deixo essa discussão para um outro momento.

"A memória é uma ilha de edição."


Contém spoilers:

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Somos felizes?

"Esse é o problema com a vida, não é? Ou você sabe o que quer e não consegue o que quer, ou você consegue o que quer e então não sabe o que quer."

Somos felizes e não sabemos? Ou somos infelizes e também não sabemos?

Do ponto de vista filosófico, há uma série de perguntas que podemos nos fazer e que servem de indagações para avaliarmos se estamos vivendo uma vida satisfatória. Listo aqui algumas delas:
  • Sua vida é prazerosa? Ou é sofrida?
  • Você age de maneira moral? Você segue princípios?
  • Você se sente uma pessoa livre? Você acha que tem liberdade para escolher o próprio caminho e as coisas que quer?
  • O que você tem hoje em dia e o que você alcançou até o momento são coisas que você já quis algum dia? Já foram seu sonho ou objeto de seu desejo no passado?
  • Você imagina que as coisas que você deseja no momento tem realmente grande impacto sobre sua felicidade? Ou você as está subestimando ou superestimando? O que você quer está muito longe do que você precisa?
  • O lugar em que você se encontra agora (em termos de moradia/trabalho/estudo etc) te alegra ou te entristece? Você acha que está no lugar certo? Você acha que está fazendo aquilo que deveria? Você está fazendo aquilo que gostaria?
  • As pessoas com quem você convive te alegram ou te entristecem? Existe alguém com quem você quer conviver mais? Existe alguém de quem você sente falta? Você sente necessidade de conhecer pessoas novas?
  • Você se dá bem com sua família (pai, mãe, filhos, irmãos, etc)?
  • Você tem algum relacionamento amoroso? Tem alguém que você ame e cujo amor seja recíproco?
  • Se você fosse morrer amanhã ou na semana que vem, o que você faria? O que teria valor para você? Existiria algo de que se arrependeria? Existiria algo que você acha que deixou de fazer?
  • Se você fosse viver a vida que está vivendo agora por repetidas vezes, por mil, dez mil ou infinitas vezes, você iria querer viver esta vida deste jeito, exatamente da forma como tudo ocorreu?
  • Você teria vontade de fazer o que faz ou o que já fez inúmeras vezes? Se fosse continuar fazendo o que você faz hoje em dia para sempre, todos os dias, você continuaria fazendo e se alegraria com isso?
Claro, felicidade é mais que responder simples perguntas. E, para alguns, felicidade nem é a coisa mais importante da vida. Porém, não custa nada se questionar...

sábado, 21 de outubro de 2017

Nietzsche, fuga da realidade e a modernidade

"Se não existe nada além desta existência, há de se concluir que apenas ela merece nosso amor. Aprender a amar nosso destino, encontrar beleza no necessário, esta é a grande lição de Nietzsche já no fim de sua produção intelectual. Este talvez este seja seu último grande ensinamento, aquele que o filósofo levou mais anos para interiorizar: dizer sim à vida, porque só ela existe e somente ela carrega valor em si mesma. Afirmar a realidade e viver em sintonia consigo mesmo. Contribuir assim para que tudo se torne mais belo, mais forte, mais potente." (https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/)
Nietzsche é um filósofo contra qualquer tipo de idealismo, como religiões, comunismo, utopias ou qualquer coisa que te tire da realidade, da vida e do mundo como ele é. É um filósofo com o qual me identifico bastante e de cujas ideias eu gosto. Posteriormente a seu trabalho, outros categorizaram o niilismo em sua obra e cunharam o termo niilismo negativo:
"Aqui, nega-se o mundo em nome de outros valores. Mas o niilista engana a si próprio, ele nunca diz negar o mundo, pelo contrário, ele se diz afirmando Deus, uma utopia, o que quer que seja. Divisão de dois mundos, um debaixo: sensível, mutável, corporal, imperfeito, temporal; outro supra-sensível: imutável, ordenado, perfeito, atemporal. O niilista negativo cria outros mundos para poder suportar este. Se esta ordem terrena o faz sofrer, ele diz: “Deus é misterioso, escreve por linhas tortas“. Se o homem sofre aqui na terra ele diz: “Deus, tenha piedade de nós“. A vontade se torna doente, remete a mundos fora deste. “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” [1Jó 2:15]. Este mundo é ruim, portanto, o niilista deve provavelmente ser o escolhido de Deus (um deus dos fracos, oprimidos, que sofrem), esta é a figura do ressentimento" (https://razaoinadequada.com/filosofos-essenciais/nietzsche/4-formas-de-niilismo/)
Segundo Nietzsche, os homens inventaram o ideal para negar o real. Logo, devemos viver uma vida sem ilusões, sem nada que possa ser usado para justificar nossas fraquezas e misérias, ou que nos façam fugir da realidade. Isso não é tão simples quanto parece, principalmente nos dias atuais. Além dos grandes idealismos e idealidades denunciados por Nietzsche, há ilusões menores e cotidianas que sempre nos cercam e, inconscientemente, estamos sempre tentando fugir do mundo à nossa frente.

Desde pequenos, somos bombardeados com informações e modelos de como a vida deve ser. Romantizamos relacionamentos, trabalho, carreira, filhos. Criamos expectativas sobre como devemos ser tratados e sobre o que merecemos por agir de maneira correta e justa (de acordo com nossa própria visão do que esses conceitos significam).

Hoje em dia, ainda temos celulares, tablets, filmes, séries, jogos, internet. Não conseguimos mais ficar na fila do banco, médico ou dentista sem um celular na mão. Não conseguimos mais viver a vida real. Não conseguimos encarar o vazio existencial, a monotonia e a angústia de viver, sendo estes facetas da vida que a tornam real e, por vezes, bela.

Necessitamos escapar da realidade. Precisamos viajar. Precisamos de algo que ocupe nossas mentes. Precisamos fugir para os mundos da ficção, dos filmes, séries e jogos, onde nossos estereótipos e expectativas são reforçados e projetamos o que esperamos que acontecesse no mundo. E vivemos correndo atrás desses ideais, tentando reproduzi-los em nossas próprias vidas. Sem esquecer de drogas e vícios, que são outro tipo de muleta para a existência, outro tipo de fuga.

Nietzsche fala então de amor fati:
"O bom e o ruim, a dor e o prazer, são inerentes à vida, amar o que nos acontece e nos acontecerá é o primeiro passo para nos tornarmos o que somos. Não precisamos mais esperar um poder exterior para justificar esta realidade, não há uma moral superior, não há um destino que justifique o mundo. O homem precisa dar conta de si, ele mesmo precisa criar sentido e justificar a realidade, transvalorando valores. Dar sentido, dar valor, é amar." (https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/)
Encerro este texto com uma frase comumente atribuída à Buda (cuja verdeira fonte não consegui confirmar):
 "Não se esqueça que os instantes que você vive aqui e agora e as pessoas com quem você convive aqui e agora são as mais importantes da tua vida por serem as únicas reais." - Budismo

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Velhice e sabedoria

Aprender a viver não é algo que vem automaticamente, só por estarmos vivos. Apenas completar mais um ano de vida não nos torna mais sábios, só nos torna mais velhos. Há sempre o risco acabarmos como o rei Lear, em romance homônimo de Shakespeare, para o qual é dito "Não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".

Há quem vive no piloto automático, sem refletir em como se dá sua relação e interações com o mundo. Criar consciência e tomar um pouco do controle é importante. Para isso, às vezes é necessário uma mudança de perspectiva, e às vezes é necessário relembrar coisas esquecidas. Ouvir histórias dos outros e adquirir o conhecimento dos que viveram experiências diferentes é fundamental para se tornar mais sábio e levar uma vida melhor. Também é importante realizar exercícios diários de auto-consciência para não sermos simplesmente levados pelo mundo.

A inspiração de hoje é o vídeo do Pedro Calabrez sobre uma das filosofias práticas mais interessantes, o estoicismo. O Pedro acaba misturando um pouco com outras coisas, mas as mensagens principais são o que valem.